O Dia em que Paguei 80 euros por um pokémon Psyduck

Em 2004 estive na Espanha pela primeira vez. Passei cerca de 12 dias em terras espanholas (e outros 25 dias em outros 6 países europeus), por isso tive muito tempo para longas caminhadas.

Em uma bela tarde estava eu passeando pela famosa Gran Via –uma das principais avenidas de Madri–, no sentido da Puerta de Alcalá, onde ocorreria uma exposição de arte.

Estava indo a pé, a despeito do longo trajeto, quando passei por uma loja de jogos eletrônicos, o que chamamos aqui de fliperama (hoje cada vez mais raros no mundo).

Na porta da loja havia uma dessas máquinas de caça-brinquedos. Daquelas que você coloca uma moeda e, manipulando uma garra eletrônica, você tenta pegar um bonequinho de pelúcia dentro da máquina. Um jogo irritante e impossível para mim.

A BUNDINHA DO POKÉMON

Mas o que me chamou a atenção de relance nessa máquina abarrotada de pelúcias foi um pequeno pedacinho de pano amarelo e encardido, preso no fundo da máquina.

Embaixo de todos os bonecos eu vi uma pequena “bundinha” amarela com um rabinho que eu imediatamente identifiquei: era um Psyduck de pelúcia, o meu pokémon preferido desde os anos 90. Ele deveria estar naquela máquina há anos, pois era o único pokémon entre os bichos diversos.

Vou situá-los, queridos leitores. Quando meu filho ainda era criança ele adorava o desenho Pokémon (e todos desenhos japoneses, aliás). E como eu disse a vocês em outro texto, eu sempre adorei patos.

Quando meu filho me apresentou ao desenho (ele devia ter uns 10 anos) eu imediatamente simpatizei, obviamente, com aquele pato gordinho e amarelo que vivia com a mão na cabeça.

Meu filho me explicou que era um pokémon muito poderoso, e que ele tinha dores de cabeça. Bastou isso para que eu definitivamente me apaixonasse por ele e passasse a colecioná-lo.

MEU VÍCIO EM PATOS

Devo ter chegado a ter uns 50 ou 60 Psyducks diferentes: de chaveiros a bonecos grandes; de  pequenos patos contidos em pokébolas até um doce Psyduck que ganhei, feito de marzipan, que acabou apodrecendo em minha gaveta no trabalho. Eu simplesmente nunca tive coragem de comê-lo. Era lindo e fofo demais.

Acontece que dois anos antes dessa minha viagem eu tinha ganho de uma gentil leitora de minha coluna então na Folha Online (hoje Folha.com) um pequeno Psyduck de pelúcia. Ele era meu xodó. Ficava sobre minha mesa. Um dia, porém, ele foi levado por alguma pessoa ordinária.

Não sou muito materialista, mas esse furto realmente me incomodou. Eu adorava aquele pato e nunca o esqueci.

Agora, dois anos depois do furto, eu havia sem querer achado um Psyduck igualzinho dentro da máquina caça-bonecos.

A NEGOCIAÇÃO

Fui até o caixa e perguntei quanto custava cada ficha da máquina: 1 euro. Calculei que seria impossível pegar aquele pato na posição que ele estava: embaixo de todos os outros bonequinhos.

Devia estar preso ali havia anos, porque a febre pokémon já havia arrefecido em 2001 pelo mundo. Aquele Psyduck ficara preso ali por um capricho do destino. Todos os bonecos daquela máquina deviam estar sendo trocados havia anos, mas meu pokémon psíquico e amarelo ficou lá como um prisioneiro à espera de seu cavaleiro salvador.

Decidi apelar para o dono da loja. Perguntei  quanto ele cobraria para abrir a máquina com a chave e retirar só aquele boneco para mim. Ele disse que não tinha a chave, e que todos os dias por volta das 13h o dono do equipamento vinha abri-lo para manutenção, e que acabara de sair inclusive.

Não me esqueço: no dia seguinte, às 12h45, eu já estava na porta do fliperama, para espanto do caixa com quem falara no dia anterior.

Esperei mais ou menos uma hora até que o funcionário “ungido” chegasse. Ele estranhou a princípio meu pedido, mas, como bom negociador, logo percebeu que o boneco era importante para mim. Então, como todo ser humano canalha e cafajeste, se aproveitou da minha condição desfavorável.

Primeiro ele disse que não poderia fazer isso, e coisa e tal, que teria quase de entrar dentro da máquina para tirar o boneco, que ele estava numa péssima posição etc.

Ofereci-lhe de cara 50 euros.

Ele chegou a sorrir, mas disse que isso era pouco, que “no mínimo 100 euros”, e começamos um leilão que terminou em negócio fechado por 80 euros. No câmbio em 2004 isso equivalia a mais ou menos R$ 300 reais.

Quando ele tirou o Psyduck da máquina, pensei que acabara de fazer a pior compra de minha vida.

O boneco estava dentro da máquina havia tanto tempo que nem era mais amarelo, era praticamente cinza. Estava todo sujo e engordurado, manchado. Simplesmente nojento.

Mas acordo era acordo e eu paguei 80 euros por aquele boneco de pelúcia “podrinho”.

PSYDUCK RENASCIDO

Quando cheguei ao Brasil mandei-o para uma lavanderia especializada e no dia que fui buscá-lo ele parecia estar sorrindo. Recuperou toda sua cor e graça.

E até hoje está comigo, como um talismã. É ele que está no alto da foto desta crônica.

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Sobre:

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

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