Filme “Auto de Resistência” choca ao expor podridão policial no Rio

Crítica do documentário "Auto de Resistência"

O documentário nacional “Auto de Resistência”, em cartaz nos cinemas, é definitivamente uma obra-prima de jornalismo.

Chocante, devastador, angustiante desde a primeira cena, é daqueles filmes obrigatórios para todo cidadão, e que deveria ser exibido para todos os alunos da rede pública como forma de conscientização.

Grosso modo, o documentário dos diretores Lula Carvalho e Natasha Neri está para o cinema nacional como o livro “Rota 66”, de Caco Barcellos (ed. Record, 350 págs. 1982), está para a literatura verde-amarela de não-ficção.

Ao contrário de outros documentários nacionais nos últimos tempos, neste não há nenhuma manipulação.

Tampouco ausência de espaço para o “outro lado” (os policiais matadores) se manifestar.

Se a voz dos acusados não se faz ouvir, é somente porque eles não permitiram que o filme gravasse.

Nem deve ser vergonha. Está mais para pusilanimidade mesmo e certeza de impunidade.

O PM CARA DE PAU

Do filme, vou citar só um exemplo da desfaçatez que policiais assassinos de inocentes perpetuam. Nele, um policial tenta “explicar” seu modus operandi.

O policial foi filmado em “ação” por uma moradora escondida em sua casa.

Depois de matarem um jovem numa favela carioca, o corpo está prostrado inerte diante dele. Há sangue por todo lado (e se espalhando). O PM está cercado por colegas.

Num momento então ele manipula uma arma, a coloca na mão do cadáver e efetua vários disparos para cima, a esmo.

Quando chamado meses depois pelo promotor, durante o julgamento, a explicar o que estava fazendo ele se sai mais ou menos com essa “justificativa”:

— A arma estava emperrada e tinha uma bala presa no tambor. Havia o risco dela disparar acidentalmente e matar não só a ele, como aos colegas, o algum morador (o local estava deserto).

— Então, para não correr riscos, ele usou a mão do morto para fazer disparos e “desemperrar” a pistola.

Entenderam? Nada ver com a tentativa de deixar marcas de pólvora na mão dele que justificassem depois que antes de virar cadáver, o jovem havia trocado tiros com a polícia.

Também nenhuma explicação para o fato de, se não queria se ferir ou aos outros, porque o seu dedo foi lá apertar o dedo do morto no gatilho para efetuar o disparo?

É vergonhoso.

O tamanho da cara de pau do sujeito, supostamente um profissional que deve proteger a sociedade (e recebe por isso), sua voz tranquila ao dar a explicação faceira aos presentes… tudo isso inunda a tela e os ouvidos do público como uma hemorragia.

E isso é só uma entre muitas provas de que aquela “autoridade” sabe que dificilmente será punida pela Justiça.

Eu falei justiça? Faz-me rir…

“AUTO DE RESISTÊNCIA”

“Auto de Resistência” é o nome de uma das artimanhas burocráticas policiais para, no fim das contas, negar que tenham assassinado inocentes (pobres). A outra desculpa se chama “morte em legítima defesa”.

Não estou aqui defendendo que 100% dos casos tenham policiais assassinos e depravados.

Mas, que parece que hoje em dia, que os bons policiais (não só no Rio, mas no país) estão virando exceção, não restam dúvidas.

O filme é doloroso e tem muitos momentos de mortes filmadas in loco.

A incompetência e o instinto sanguinário eternizados em vídeos para todo mundo ver.

“Auto de Resistência” também é contundente ao mostrar o comportamento de escória da Assembleia do Rio ao “fingir” que investigava a matança em uma CPI até hoje sem desfecho.

MARIELLE (REALMENTE) PRESENTE

Outros momentos tocantes  do filme são algumas das últimas imagens da vereadora Marielle Franco.

Lá está ela, combativa, decidida, atuante, dando apoio e ao lado de parentes dos mortos, e que acabou também assassinada durante a finalização do filme –num crime até hoje sem solução.

Aliás, o documentário diz que 92% dos casos de morte e “autos de resistência” jamais foram punidos, pois são arquivados.

Dos 8% de casos restantes, mais da metade dos acusados aguarda julgamento ou condenação em liberdade.

É de dar nojo.

Ainda bem que dois diretores corajosos e competentes legaram esse filme à posteridade.

Filme: “Auto de Resistência”

Onde: Em cartaz nos cinemas

Avaliação: Excelente 🌟🌟🌟🌟🌟

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Assista ao trailer de “Auto de Resistência”

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Sobre:

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

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