Slash: biografia de músico parece história de terror

Crítica da biografia do guitarrista Slash, por Ricardo Feltrin

Quando terminei de ler “Slash”, a biografia do brilhante guitarrista do Guns N´Roses, eu respirei fundo e coloquei a mão no peito.

Me sentia oprimido, deprimido, chocado com o que acabara de ler.

Quem acompanha meu site Ooops e meu trabalho como jornalista e músico deve saber que sou obcecado com livros que envolvam ou contem a história de músicos de qualquer século.

Tenho quase uma “parede” de biografias desse tipo (veja foto de parte dela mais abaixo).

Eric Clapton, Ozzy Osbourne, Keith Richards, Dee Dee Ramone, Freddie Mercury, Ronnie Wood, Jimi Hendrix, David Mustaine, Steven Tyler, Joe Perry, Sid Barrett, John Lennon, Mozart… Eu poderia fazer vários parágrafos com as biografias de músicos geniais, drogados e alcoólatras que já li.

E, posso afirmar com convicção: nunca, NENHUMA outra história, NENHUM outro livro me deixou tão abalado como “Slash – Parece Exagerado, Mas Não Significa Que Não Aconteceu”.

Um dos motivos é que as biografias de quase todos os artistas drogados citados dois parágrafos acima têm  momentos leves e de humor. A de Slash, não. É só peso e opressão. Por isso também se torna viciante.

Apesar de extenso, agora entendo perfeitamente esse subtítulo enorme que colocaram no livro.

Em muitas páginas lembro que cheguei a parar e voltar para a capa para ter certeza mesmo se estava lendo uma história real ou se era uma pegadinha –seria apenas uma ficção que o guitarrista fez com a ajuda do escritor Anthony Bozza (editora Ediouro, 2008, 464 págs)?

SLASH – GÊNIO E LOUCO

A genialidade de Slash, o nome artístico do britânico de nascimento Saul Hudson, hoje com 53 anos,  é tão grande quanto o horror que ele teve de vivenciar durante e depois do estrelato.

Boa parte desse horror, vale dizer, foi causado única e exclusivamente por ele próprio e suas tendências auto-sabotadoras (e suicidas).

Descontrolado, compulsivo, alcoólatra, usuário de todo tipo de drogas, e tudo ao mesmo tempo, o mais incrível de tudo –assim como Ozzy– é ele ainda estar vivo. E ainda ser tão produtivo.

Aliás, se você é fã do Guns N´Roses eu sugiro que antes de ler qualquer biografia autorizada ou não da banda, você leia este livro.

O único problema é que, lançado em 2008, hoje o livro está esgotado e é muito difícil de encontrar, até mesmo em sebos digitais. E, se achar, prepare-se para desembolsar mais de R$ 100. Mas, quer saber? Vale a pena e muito.

Como guitarrista, creio que Slash tem muita influência do norte-americano Joe Perry (Aerosmith), mas ele desenvolveu um estilo próprio e pesado que não deve nada a nenhum outro guitarrista do final do século 20 ou do século atual.

AXL, UM EGOÍSTA MANIPULADOR

Voltando ao Guns: para mim o livro chegou a ser exasperante em várias passagens devido ao que parece ser a infinita paciência de Slash com o vocalista Axl Rose.

É meio que óbvio, de acordo com os incontáveis relatos do guitarrista, que Axl é ou era um psicótico com sérios delírios megalômanos e com algum tipo de transtorno obsessivo compulsivo grave.

É também um manipulador e um egoísta que pouco se preocupou em algum momento de sua vida com qualquer outro parceiro de banda, contratante, empresário e muito menos seus fãs.

Com raríssimas exceções desde que surgiu nos anos 80, quase sempre que a banda Guns N´Roses chegou atrasada ou não tocou em algum show, a culpa foi de Axl Rose.

Também é responsabilidade dele se, nos anos 90, quando o Guns explodiu e passou a fazer shows quase no mundo todo, Slash e o restante da banda continuassem duros e endividados.

O problema é que, quando os empresários da música descobriram que “atraso” era a palavra-chave dos shows do grupo, simplesmente criaram cláusulas que podiam comer quase todo o cachê ou impor pesadas multas quando a banda entrasse tarde ou nem sequer se apresentasse. Às vezes saíam do palco devendo.

Parte dos meus livros sobre música e músicos
Parte dos meus livros sobre música e músicos

Por exemplo, Slash conta que, durante a turnê com o Metallica, de julho a outubro de 1992, as duas bandas fizeram 26 apresentações.

Era para o Guns abrir e o Metallica fechar. Depois de duas ou três apresentações, no entanto, o pessoal inteligente do Metallica tratou de inverter os papéis e pediu para ser a banda de abertura.

Dois ou três shows bastaram para que ficassem escaldados com as manias, obsessões e atrasos crônicos de Axl e trataram de tirar o seu da reta.

Pior que isso: no final dessa milionária turnê, Slash conta que recebeu só uns poucos milhares de dólares, enquanto os integrantes do Metallica chegaram a colocar sete dígitos no bolso.

Por quê?

Bem porque, além das multas por atrasos e outros motivos, Axl cismou de fazer “festinhas temáticas” pós-shows, para convidados VIPs e bajuladores, servidos com comidas e bebidas premium. E tudo organizado por parentes de Axl.

Cada show tinha uma festa perdulária que podia custar dezenas de milhares de dólares e um tema ridículo. O dinheiro saía do cachê do Guns. Axl sempre agiu como o dono da banda. Os demais, inclusive Slash, eram apenas seus empregados.

O que é curioso (e exasperante) na biografia de Slash é que ele não conta nada disso com rancor, tristeza ou comiseração. Além de admirar verdadeiramente o colega vocalista, ele estava doidão demais para reclamar de alguma coisa.

Por isso também é responsável pela própria ruína à época.

Mais tarde, quando ele havia deixado o Guns havia anos, e decidiu montar o Velvet Revolver com o ainda mais doidão Scott Weiland (1967-2015) , Slash quase bateu nele simplesmente porque um dia Scott começou a criticar Axl.

O guitarrista ordenou-lhe que calasse a boca ou algo pior lhe ocorreria. Isso é o que se chama de amizade sem contrapartidas.

DROGAS PESADAS, VIDA PESADA

As experiências de Slash com drogas são tantas, tão pesadas e tão assustadoras que são, ao mesmo tempo, o ponto alto e baixo da sua biografia.

Se vocês acham que Ozzy foi o maior drogado da história do rock é porque ainda não leram este livro.

Depois que o Guns surgiu, Slash bebia de duas a três garrafas de vodka Stolichnaya por dia, enquanto injetava nas veias alternadamente cocaína e heroína. Fora as outras drogas.

A certo ponto da vida ele revela que mal conseguia mais pensar em outra coisa que não a sensação de aceleração da coca no sangue, seguida pela dose relaxante e inebriante de heroína. Isso sem falar nos quatro ou cinco maços de cigarro diários.

Por incontáveis vezes ele diz que tentou parar com tudo, mas não conseguia passar de uns poucos dias longe das drogas.

A única vantagem que ele levava era o fato de ser um músico tão intuitivo e um guitarrista  tão brilhante que, mesmo chapado, ainda conseguia se apresentar (exceto em algumas vezes).

Em um dos trechos ele lembra que as pessoas chegaram a se afastar dele, inclusive fãs, devido ao que ele presume ser a imensa massa de energia pesada que o circundava.

ENERGIA PESADA

Em um show, “doidaço”, decidiu se jogar em cima dos fãs que ficavam no gargarejo, na frente do palco. Triste, ele lembra que era tão repulsivo que, quando se jogou, um enorme vazio se abriu em uma fração de segundo.

Como se as pessoas estivessem desesperadas e se afastando para que ele não as tocasse.

O resultado foi que se arrebentou no chão e se feriu com gravidade.

Em outra ocasião se drogou tanto que desmaiou na casa de um amigo. Acordou horas (ou dias) depois, ele não sabe, de madrugada e morrendo de sede da ressaca.

Correu até a geladeira do amigo, viu uma garrafa com um líquido qualquer, abriu e tomou tudo de uma talagada. Calcula que havia mais de meio litro do líquido.

Era metadona líquida, que o amigo tomava para tentar abandonar a heroína.

Slash disse que acordou dias depois de um profundo coma, quando estava internado em um hospital que ele não faz a menor ideia de como chegou ou de quem o levou.  

Em outra ocasião, talvez a mais surrealista e horrenda do livro, ele decide se afastar das drogas viajando para um spa em uma ilha paradisíaca.

Só que, por via das dúvidas, ele levou consigo uma supercarga de drogas para que pudesse ir “abandonando aos poucos”.

Bem, ele usou o que podia e o que não podia no próprio avião.

Quando chegou ao hotel, se trancou no quarto e continuou com o “rushing” do drogado por dias a fio, sem comer nada, só injetando cocaína e heroína e fumando.

Em um momento, desesperado, ele se senta no box do banheiro e liga o chuveiro. Ali chorou por horas e sofreu todas as dores físicas da depressão dos piores drogados.

Então ele viu uma sombra ou um vulto negro saindo ou do ralo ou das frestas do chão do banheiro, o vulto cresceu, cresceu, ameaçador, até que em um certo momento todas as paredes de vidro do box  explodiram ao mesmo tempo.

Desesperado, ferido pelos estilhaços, chorando e em pânico, foi a primeira vez que conseguiu sair do quarto em dias.

Pelado, correu para os jardins do hotel e ficou “escondido” atrás de um arbusto, fugindo da “sombra negra” que o perseguia. Enquanto isso os demais hóspedes (tampando os olhos dos filhos pequenos) pediam que fosse chamada a polícia ou uma ambulância com urgência para tirar aquele pervertido do arbusto.

LIVRO É ÓTIMO, MAS DEPRIME

É assustador, terrível e também comovente. O lado lamentável é que com uma vida tão louca assim falta espaço no livro e na atenção do leitor para o músico genial sobre o qual estamos lendo.

Um mágico, um virtuose, um criador fabuloso de “riffs” e melodias que ainda deverão ser conhecidas e tocadas por muito tempo. Slash é um músico com nome registrado na história.

Apesar disso, parodiando o livro, de fato parece exagerado, mas não significa que tudo isso não aconteceu.

Porque quando você acaba de ler tem essa certeza: ninguém poderia ter inventado uma vida assim na ficção.

Livro: Slash – A Biografia (de Slash e Anthony Bozza) #slashbiografia

Editora: Ediouro

Ano: 2008

Avaliação: Excelente (e terrível)  🌟🌟🌟🌟🌟

Observação: Livro em português indisponível em lojas físicas.

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Sobre:

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

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