Cinema: “Maria Callas”, a diva que morreu de amor

Crítica do filme "Maira Callas - Em Suas Próprias Palavras", por Ricardo Feltrin, site Ooops

“Maria Callas”, documentário ainda em cartaz nos cinemas, mostra de forma clara como a mídia, 70 anos atrás, também era obcecada com celebridades.

Pensem bem: nos anos 50 não havia “Big Brother”; a TV era incipiente; e a área de fofocas dos jornais e rádios se dedicava basicamente a futricar as vidas de artistas de cinema e da música.

Nascida em 1923 em Nova York, Maria Cecília Sofia Kalogeropolu nunca quis ser cantora profissional.

Mas, sua voz era tão impressionante desde criança, que pai e mãe praticamente a obrigaram a seguir essa carreira.

Ela lamentaria isso mais tarde, e se sentia alijada por não ter recebido uma educação formal.

Apesar disso era uma mulher impressionante, muito culta e poliglota. Inglês, italiano, francês, grego…

Embora nascida nos EUA, começou a ficar a famosa na Grécia, para onde retornou com sua mãe no final dos anos 30 por causa de uma crise financeira que abateu a família.

A VOZ

O que dizer de sua voz? Para quem ama música, é impossível descrever a cantora em um texto.

É preciso ouvir aquela voz, saboreá-la, especialmente em suas apresentações entre 1950 e 1965.

E é justamente isso que o diretor Tom Volf entrega ao público em “Maria Callas – em Suas Próprias Palavras”, filme que chega ao Brasil com um ano de atraso em relação ao resto do mundo.

O que faz deste documentário uma obra-prima  justa é o enorme respeito que Volf tem pela artista e por suas atuações.

Boa parte do documentário tem peças inteiras interpretadas por ela, ao vivo. Sem falar em pouco conhecidas entrevistas dela a jornalistas.

Aliás, o jovem diretor Volf nem conhecia Callas dez anos atrás.

Quando começou a ouvi-la, por acaso, se encantou imediatamente e se tornou um expert na vida e obra dessa soprano, a maior de todos os tempos.

Não é exagero algum, senhoras e senhores. Se existiu Einsten na física, Marie Curie na química, Shakespeare na literatura e Pelé no futebol, também existiu Maria Callas no canto lírico.

Em seus quase 20 anos de carreira ativa, por pelo menos 15 anos sua voz não tinha qualquer rival no mundo.

MARIA CALLAS

Callas como cantora era uma conjunção de timbre maravilhoso com afinação absoluta; de técnicas de respiração a um talento como atriz incomparável.

É uma pena que nunca tenha se interessado em trabalhar  no cinema. Se a medida for suas interpretações dramáticas em óperas, ela seria certamente uma séria candidata ao Oscar.

Era também uma cantora incrivelmente dedicada a evoluir profissionalmente, e se recusava a ser um clichê operístico ambulante.

Por que clichês? Porque, assim como ocorre hoje na música contemporânea, no século passado o “mainstream” também queria mandar e desmandar no que as pessoas ouviam nas salas.

No auge da carreira foi demitida do Metropolitan por não concordar com as peças repetitivas que o diretor queria lhe impor para a temporada seguinte.

“Eu quero evoluir como cantora, mas ele quer só ganhar dinheiro. E com minha voz”, rebateu ao ex-empregador.

Quando retornou anos depois ao Met, foi aplaudida de pé mesmo antes da apresentação.

Callas era genial, mas também geniosa. Hoje em dia ela seria uma espécie de rainha do “vrá” na cara da sociedade. Não levava desaforo para o hotel.

AH, O AMOR

Apesar de sua genialidade, talento, determinação –e também empáfia–, Callas também era um ser humano extremamente delicado e carente.

Seu grande azar –se é que podemos falar isso– foi ficar perdida e loucamente apaixonada pelo armador grego Aristóteles Onassis. Um baixinho de 1m65 com fama de amante maravilhoso.

Callas era uma petulante, sim, mas também uma mulher amorosa. Sua vida desabou no momento em que descobriu que o grande amor de sua vida a estava traindo com Jackie, a viúva do presidente Kennedy.

Suas últimas cartas, que no filme são lidas pela atriz Fanny Ardant (que interpretou a cantora em “Callas Forever”, de Franco Zefirelli, 2002), mostram que a traição não apenas a dilacerou.

A deslealdade do parceiro a fez perder a esperança, o chão, a sustentação, a vontade de viver.

Callas, a diva, morreu em Paris, aos 53 anos, dois anos depois de Onassis.

Morreu de coração partido.

Filme: “Maria Callas – Em suas Próprias Palavras” #MariaCallas
Onde: Em cartaz em alguns poucos cinemas
Avaliação: Excelente 🌟🌟🌟🌟🌟

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Sobre:

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

  1. Que texto mais lindo me deu vontade de assistir correndo porque já assisti o seriado Callas e Onassis (GNT) que era sobre a vida dela e foi maravilhoso!!!

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