Cinema: Green Book traz o pior e o melhor da humanidade

Mahershala Ali e Viggo Mortensen em cena do filme "Green Book - Guia"

O filme “Green Book, o Guia” –resumindo para você que não lê além do primeiro parágrafo de texto nenhum– é muito bonito, lindo até, sobre o ser humano.

Ele trata do que há de pior e de melhor dentro da nossa espécie. Em pensamentos, sentimentos, palavras, atos e omissões. Sim, vale muito a pena assistir e estreia esta semana nos cinemas do país.

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Intolerância, amizade, ódio, respeito, desprezo, amor, violência, proteção, riqueza, pobreza, cultura e ignorância…. toda a raça humana está nos 130 minutos do filme que deve concorrer a algumas categorias importantes do Oscar 2019 (que serão anunciadas nesta terça, 22/01).

O filme dirigido por Peter Farrelly se passa nos subúrbios de Nova York cerca de duas décadas após o fim da Segunda Guerra.

Tony ‘Lip’ (Viggo Mortensen) é um italiano carcamano e pobretão que dá duro para sustentar a família com o trabalho na noite novaiorquina.

Ele trabalha numa boate de ricaços como faz-tudo, segurança e bajulador. Mas, a casa noturna precisa fechar para ser reformada, e ele fica desempregado com outros colegas ítalo-americanos.

Apesar de ser um imigrante brutamontes, ignorante, pobre e cheio de sotaque, Tony é um racista que despreza os negros, por exemplo, ao ponto de jogar fora um copo de vidro que tenha sido usado por eles (vai entender a dicotomia espiritual da bumanidade…)

Tony, no entanto, ainda tem uma réstia de luz interior, alguma coisa ali dentro ainda se chama caráter.

Apesar de endividado, com a mulher e dois filhos para cuidar, e agora desempregado, ele é assediado o tempo todo, mas nunca aceita convites para trabalhar com os italianos mafiosos, que poderiam lhe pagar muito bem e tirá-lo da pobreza.

Bem, só que o serviço seria sempre sujo (de sangue, se é que me entendem).

Nesse momento surge a oportunidade de emprego: um “doutor” vai fazer uma turnê pelo Sul dos EUA e precisa de um motorista e segurança.

GREEN BOOK, BLACK PEOPLE

Tony vai lá preencher a ficha de candidato ao emprego, mas já leva um susto ao saber que não se trata de um doutor, mas de um pianista, senhor Don Shirley (o ator Mahershala Ali). Pior ainda: ele é negro.

Quase 100 anos depois da “libertação” dos escravos, os EUA ainda são racistas até a medula, especialmente no Sul (aliás, até hoje, né?)

Shirley é o respeitado líder de um trio de “música popular” (com baixo e violoncelo) e é aclamado por onde passa.

Aplaudido de pé. Paparicado, cortejado, elogiado, concorrido.

Só que, ao mesmo tempo, ele ainda não pode usar o banheiro de algumas casas por ser negro, nem jantar em boa parte dos restaurantes, muito menos se hospedar no hotel em que bem quiser.

Daí o nome do filme: “Green Book” foi o nome de um guia de viagens que ensinava como os negros empregados deviam se comportar na tal América livre; onde podiam ou não podiam entrar, viver; até que horas poderiam caminhar sem serem espancados ou presos.

Apesar de aplaudido de pé, sr. (ou dr.) Shirley ainda é tratado em boa parte de sua viagem como um “macaco” bem adestrado, que no fundo “apenas” toca piano muito bem.

AMIZADE IMPROVÁVEL

Tudo começa mal entre Dr. Shirley e Tony Bocudo. Eles estão em posições parecidas e, ao mesmo, tempo distantes.

Um é rico, outro é pobre. Um é culto, o outro é burro feito uma porta. Um é educado, o outro é… bom… sem comentários.

O que os dois têm em comum é o desprezo do resto da “América” por eles; a América bem-sucedida –e principalmente branca– do pós-guerra.

É isso que começa afastando um do outro e também acabará por reuni-los num tipo de relação rara e desconhecida. No fundo, são dois “carcairmanos”.

A atuação de Mahershala Ali no papel do pianista negro tem sido elogiada e premiada mundo afora. Mas, eu, pessoalmente, considero que o espírito do filme é o Bocudo de Mortensen.

SESSÃO DA TARDE

Claro, é um filme da DreamWorks, e não um drama “cult”. Provavelmente vai passar um dia na “Sessão da Tarde” (se ela continuar a existir, claro…)

Mas, é um filme que enche os olhos da plateia do começo ao fim; que a faz rir, até gargalhar e se emocionar segundos depois.

Baseado em fatos reais, “Green Book” pode ser considerado um filme moral. Nada melhor nestes tempos de falta total dela.

Filme: “Green Book – O Guia”
Onde: em cartaz nos cinemas a partir de 24/01
Avaliação: Excelente – 🌟🌟🌟🌟🌟

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Assista ao trailer de “Green Book – O Guia”

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Sobre:

Ricardo Feltrin é colunista do UOL desde 2004. Trabalhou por 21 anos no Grupo Folha, como repórter, editor e secretário de Redação, entre outros cargos.

  1. Que delícia poder reencontrar o Ooops!!!! E vc!!!!! Muito tempo se passou desde que eu acompanhava avidamente o Ooops, se não me engano, no site do UOL!!!! Agora não te largo mais… li várias postagens e mais tarde, quando encerrar meu trabalho, vou ler mais… emocionante a sua história da Pata Gertrude…

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