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Veja a íntegra do ‘depoimento’ de Daniel Vorcaro à PF

Veja a íntegra do 'depoimento' de Daniel Vorcaro à pf

Veja a íntegra do ‘depoimento’ de Daniel Vorcaro à PF. Este site obteve a íntegra da “oitiva”.

Estavam presentes na sala dois juízes auxiliares de Dias Toffoli, dois procurados do Ministério Público federal e mais funcionários da PF.

Veja a íntegra AQUI

OITVA – DANIEL VORCARO (PARTE 1)
DELEGADA: São só os relatórios. Seria o relatório do Banco Central, doutor, que deu
ensejo a todas as medidas cautelares. Acredito que o senhor e o investigado também jáham tido acesso a esse documento.
Vou começar aqui, vou dar início.
Comigo, o juiz-instrutor e o desembargador-instrutor do gabinete do ministro Toffoli. O
meu chefe, coordenador da coordenação dos tribunais superiores.
Alan, o escrivão da delegacia em que eu trabalho. O doutor Ubiratan e o doutor Joaquim,
ambos do Ministério Público Federal, responsáveis pelo caso. E, por fim, o Ilker, que é o
perito do caso.
Vou fazer consignar, com a licença da defesa, que o doutor Toffoli, o ministro Toffoli,
decidiu que seria feito o depoimento e, em seguida, caso necessário, a acareação do
senhor, com os demais presentes aqui nesse ato.
Bom, falando dos direitos do senhor. O senhor está sendo ouvido como investigado. Isso
é um depoimento preliminar. Isso não exclui a próxima oportunidade que o senhor será
ouvido. Então, o senhor já fica de antemão, a defesa de antemão já é avisada sobre isso.
O senhor tem direito a estar aqui na presença dos seus defensores, dos seus advogados
e tem direito também a permanecer calado. Então, caso o senhor se sinta desconfortável
para responder alguma das perguntas, o senhor tem todo o direito de permanecer

calado. Uma questão relevante aqui é que, para o nosso caso, para a nossa investigação,
nós não estamos discutindo o mérito da liquidação do banco do senhor.
Nós não vamos entrar, nós não vamos nos aprofundar nisso. Eu acredito que o senhor
esteja discutindo isso em outras esferas. Então, aqui vai ser mesmo a questão da
TIRRENO.
A gente não vai ampliar o escopo da nossa investigação, que é justamente o que está aí
nesse relatório. Está certo? Posso iniciar as perguntas?
DANIEL V.: Pode.
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DELEGADA: Senhor Vorcaro, inicialmente, eu gostaria que o senhor comentasse com
quem no banco do senhor, o senhor tratava da venda dessas carteiras, da aquisição
desses créditos da TIRRENO, como surgiu, para que o senhor desse uma contextualizada,
como surgiram esses créditos e como foram emitidas as CCBs que foram, em seguida,
cedidas ao BRB?
DANIEL V.: Bom, boa tarde. Desde 2019, a gente iniciou com a originação desse produto
de crédito consignado. Então, existiu uma, foi criada uma equipe, na época trazida pelo
meu ex-sócio, que era o Augusto Lima, e ele formou uma equipe lá dentro do banco para
poder fazer essas originações desses créditos. Ao longo do tempo, a gente foi
desenvolvendo esse produto, foi crescendo e a equipe foi aumentando, o banco foi
aumentando também de tamanho, de patamar e até de volume de originação.
Eu, como presidente, obviamente não entrava nos detalhes, seja da originação, seja de
qualquer questão operacional do consignado, mas eu participava sempre das transações
que a gente fazia, que a gente passou a fazer desde 2020 ou 2021, de cessão de carteiras
para investidores. A gente realizou ao longo desse período, desses últimos anos, várias
sessões para diversos investidores das carteiras que a gente originava, principalmente
com o produto Crédito Sexta, que era o principal.
DELEGADA: As carteiras originadas com relação à TIRRENO têm uma particularidade,
porque a TIRRENO foi criada, salvo engano, em dezembro, de acordo com o ato
constitutivo da empresa, e ela não foi originada por correspondentes, por empresas do
Grupo Master. Os créditos vieram de outros originadores. Então, o que eu gostaria de
perguntar de forma mais objetiva é quando o senhor tomou conhecimento da TIRRENO,
porque o senhor era o presidente do banco e gerou um volume enorme de dinheiro para
o senhor.
Eu acredito que, por exemplo, se não passou por um setor de compliance, os créditos,
como leva a crer? O senhor sabia que o dinheiro controlava a entrada do seu banco.
Então, gostaria de saber como surgiu a TIRRENO. Quem apresentou esse produto para o
senhor? O senhor deu o ok para a compra desses créditos? Então, gostaria que o senhor
fosse um pouquinho mais objetivo.
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DANIEL V: Desculpe, alonguei um pouquinho, porque é importante contextualizar de
como a gente chegou nessa questão. A gente vinha planejando uma mudança de rota
no final de 2024, em razão de diversas questões que estavam acontecendo,
mercadológicas, de mudança de regulação que aconteceram, que pressionaram os
canais do banco de distribuição. Então, naquele momento ali, no final de 2024, início do
ano de 2025, a gente estava num planejamento novo, que já seria um negócio que a
gente estava engendrando com o banco BRB.
Então, nesse momento, na decisão de expandir a nossa originação e de trazer um
portfólio maior do que a gente tinha e que a gente vinha trabalhando nos últimos meses,
foi trazido esse negócio. Na época, eu não sabia nem o nome TIRRENO. Na verdade,
eram as pessoas, que eram pessoas que tinham experiência de mercado, que já tinham
trabalhado com banco, que já trabalhavam com banco e queriam trazer um volume, para
a gente poder aumentar o volume nessa nova fase que a gente teria com o BRB.
DELEGADA: Foram essas pessoas que trouxeram esse produto e apresentaram para o
senhor?
DANIEL V: Na verdade, a gente já estava muito inserido nesse contexto do consignado.
O banco já estava relevante nisso. São pessoas que já trabalhavam dentro do…
DELEGADA: Quem são essas pessoas? O senhor pode nominá-las, por favor.
DANIEL V:Que trouxeram?
DELEGADA: Que trouxeram a TIRRENO e que ofereceram os créditos da TIRRENO para o
senhor.
DANIEL V: Na verdade, quem trouxe o negócio foi o dono, que, na verdade, era sócio da
Cartos e acabou criando a TIRRENO para poder fazer esse projeto, desvinculado dos
sócios anteriores dele, que é o Henrique Peretto.
DELEGADA: Sim, então o senhor Henrique apresenta ao senhor esse portfólio de
créditos, não é isso? E tem uma situação com relação à TIRRENO que inclusive foi o que
vinculou o senhor a essa empresa, que é o fato de que um dos diretores, ou o diretor da
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TIRRENO, é um ex-empregado do Banco Master, que é o senhor André. O senhor tem
conhecimento, tinha conhecimento disso, na época que o senhor realizou o negócio?
DANIEL V: Não. Na verdade, eu não conheci o André anteriormente. Fiquei sabendo
posteriormente que ele tinha trabalhado no banco. Mas, como disse, esse ambiente do
consignado, de originadores, de pessoas, era um ambiente que funcionava
operacionalmente dentro do banco.
Então, eram pessoas que tinham trabalhado, seja como parceiros ou seja como
funcionários, que trouxeram esse novo negócio, essa nova opção de originação de
créditos para a gente.DELEGADA: O banco do senhor, que é um banco de médio porte,
ele mantinha, nessa época da TIRRENO, mantinha estrutura formal, segregada, de gestão
de risco, compliance e jurídico? Existia?
DANIEL V: Sim, com certeza.
DELEGADA: Então, existindo essa estrutura segregada, o senhor pode me apontar quem
eram as pessoas responsáveis? Por exemplo, o senhor Luiz Antônio Bull, ele era diretor
de quê? Qual era a função? Ele atuava em alguma dessas áreas?
DANIEL V: O Luiz Bull era responsável pelas áreas que abarcavam a parte de compliance
e jurídico também. E o outro diretor, que era o Ângelo, na parte de controladoria, na
parte operacional e de tesouraria e controladoria. São as duas pessoas principais do
banco, além de mim.
DELEGADA: Então, essas áreas de gestão de risco, compliance e jurídico eram de atuação
desses dois diretores, do senhor Luiz Antônio Bull e do senhor Ângelo, certo? E esses
créditos, eles passaram por essas áreas para serem aprovados ou uma aprovação?
DANIEL V: Acredito que sim. A gente tinha um processo operacional desenhado com
manuais e procedimentos que envolviam desde a originação de carteiras quanto a pré
cessão de carteiras, que era algo que a gente já fazia com certa… Por muitas vezes a
gente fez sessões de carteiras.
A diferença nesse caso é que a gente estava com uma originação já vindo de terceiros.
Foi a primeira vez que a gente tinha. Então, de certa maneira, acho que a gente estava
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testando ali, o pessoal operacional, testando como seriam os instrumentos novos, uma
vez que a originação não era originada na ponta, já por nós.
DELEGADA: Então, a originação de por terceiros, a TIRRENO foi a primeira empresa que
fez isso para o Banco do Senhor.
DANIEL V: Na verdade, de aquisição de carteiras já originadas, sim.
DELEGADA: Sim, então foi a primeira experiência.
DANIEL V: Creio que sim, em volumes maiores, sim. Pode ser que a gente tenha feito no
passado em volumes menores, mas em volumes maiores, sim. Sim, está certo.
DELEGADA: Sim, está certo. E essa questão do compliance, porque quando a gente lê o
contrato e quando a gente compara com os documentos que surgiram depois do Banco
Master, vê-se nitidamente que não foram recebidos os documentos antes da cessão dos
créditos. Os créditos foram transformados em cédulas de crédito bancário, título
executivo que é de responsabilidade do banco, cuja autenticidade é da responsabilidade
da instituição financeira. As carteiras foram transformadas e foram encaminhadas, foram
cedidas ao BRB.
E, pelo contrato, o que me parece é que, de fato, não houve essa checagem rigorosa que
o senhor acaba de me descrever. E a minha dúvida é, esse controle das entradas, quem
fazia esse repasse das informações para o senhor? Quem mostrou esses contratos para
o senhor?
Eram os dois diretores? Havia uma outra figura? O tesoureiro do banco, ele te
encaminhava os recebimentos relativos a essas carteiras, que é o senhor Alberto Félix?
DANIEL V: Na realidade, eu tratei dos contratos macro da transação, que era uma
transação que a gente adquiria portfólios, volumes de portfólios, e que a empresa teria,
ou os sub-representantes da empresa teriam, tempo ali para poder entregar toda a
documentação pertinente às operações. E nós nos resguardamos de todas as cláusulas
e questões para algum vício documental.
DELEGADA: Então, o senhor não tinha conhecimento, por exemplo, dos processos que
foram submetidos às carteiras da Tirreno? Porque o senhor aparentemente me disse
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que existia um procedimento obrigatório de compliance relativo às carteiras de crédito,
que era obrigatório, que deveria passar para uma gestão de riscos, é isso? Gestão de
riscos, de compliance?
DANIEL V: Geralmente, segue um trâmite normal.
DELEGADA: Apesar de ser uma experiência nova, o senhor está me dizendo que era uma
experiência nova, seria obrigatório esse transcurso, não é isso?
DANIEL V: Com certeza. Na verdade, não só por nossa parte, como por parte também
de quem estava adquirindo outro ponto.
DELEGADA: Quais seriam, no entender do senhor, e aí eu peço essa explicação, porque
eu não sou técnica, no entender do senhor, uma visão técnica como dono de banco,
quais são os requisitos obrigatórios para aprovação de uma carteira de crédito?
DANIEL V: Depende do tipo de carteira. No caso de uma carteira de consignado, entendo
que tem que se averiguar se tem um limite disponível para aquela concessão. E tem uma
série de documentos que, me desculpe, eu não tenho os detalhes técnicos.
DELEGADA: Sim, mas para serem compradas pelo banco do senhor, elas teriam que
passar por quais averiguações?
DANIEL V:Acho que análise de crédito e uma análise de compliance, basicamente.
DELEGADA: A origem da empresa, a forma como ela era constituída, isso importaria
também na gestão?
DANIEL V: Na verdade, ali funcionaria, a gente faz um cadastro de correspondentes, de
pessoas que originavam já carteiras para o banco. Então, ao que eu entendo, a figura ali
da pessoa que estava na negociação, inclusive já era parceira do banco por meio de uma
outra empresa. Então, importa sim, o banco tinha o cadastro de quem fazia a originação,
mas a gente não corre o risco da empresa originadora. Na verdade, o risco é o crédito
final.
DELEGADA: Entendi. E aí a questão toda é porque essas carteiras foram transmudadas
dentro do banco. Houve a emissão de um título executivo que atesta a veracidade de um
crédito, de créditos que aparentemente não haviam sido nem documentados.
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E aí a mesma pergunta que eu fiz, relativa à origem dos créditos, eu faço com relação à
emissão de títulos de crédito executivos, em que existe uma obrigação legal, ele só pode
ser emitido por uma instituição financeira. Quais são os requisitos mínimos de
compliance, de regra de compliance mesmo, due diligence? O senhor me desculpe a falta
de governança.
Quais são os requisitos mínimos para que uma instituição financeira possa fazer a
emissão dessas CCBs? Porque pelos documentos que a gente tem, eles não foram
cumpridos.
DANIEL V: Eu entendo que sim. Na verdade, para cada tipo de carteira e cada tipo de
portfólio, você tem um checklist. Isso não é fora do usual.
A gente chegou, quando você tem instrumentos de crédito que são feitos entre
instituições que não são instituição financeira, geralmente eles não têm a emissão de
uma CCB. Eles podem ser regulados por meio de contrato. Funcionam várias entidades
que fazem a originação de crédito consignado sem a emissão de um título de CCB.
No momento que esse crédito passa do mercado não financeiro, entre instituições não
financeiras, para o mercado financeiro, é necessário, é obrigatório que se emita um título
de CCB, seja para registro dentro do próprio banco, seja para um transacional. Então, na
verdade, a CCB ali é uma formalização de um crédito, um portfólio, que já existia em um
ambiente fora do ambiente bancário. Então, nesse negócio com a TIRRENO, inclusive,
uma vez que estava trazendo para o ambiente financeiro, era obrigação do banco.
Poderia ter sido feito, inclusive, em outra instituição financeira, a emissão, a gente
acabou fazendo internamente a emissão desse título de CCB.
DELEGADA: Então, o senhor confirma que o senhor Henrique Souza Peretto era um
parceiro de longa data. O senhor já tinha feito outros negócios com ele?
DANIEL V: Não, não diretamente. Já o conhecia, a gente já tinha conversado por algumas
vezes em alguns outros anos, mas não acredito que a gente tenha feito, a gente não fez
nenhum negócio especificamente. Ele fez, sim, negócios com o banco, mas não
diretamente comigo.
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DELEGADA: E o senhor sempre se comunicava com o senhor Henrique Peretto? Quando
iniciaram, porque foi em janeiro que iniciaram essas operações com a TIRRENO e em
maio, acredito que em maio, já começou a haver, existe uma demanda pela
documentação pelo Banco Central. E aí os senhores começaram a conversar, havia
diálogos?
DANIEL V: Sim, eu, na verdade, até o início da transação, fazia muito tempo que não o
encontrava. Depois que começou a surgir essa demanda de documentação, que eu
entendi que havia problema de vício ali de documental, aí, sim, a gente começou, a gente
teve alguns encontros e conversas para que isso pudesse ser sanado. A nossa primeira
tentativa era receber a documentação da carteira, que, quando a gente viu que poderia
demorar ou que não estava a contento do que era o banco, a gente executou a cláusula
de cartilha para poder desfazer a operação.
DELEGADA: E aí, mesmo os senhores tendo utilizado essa cláusula de cartilha, a gente
percebe que continuaram as negociações. Então, pelo menos pelos dados aqui que estão
no relatório sucinto das ocorrências, após essa notificação que o senhor menciona agora,
que fica acontecendo no dia 2 de abril de 2025, o senhor fez a aquisição de pelo menos
mais… 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10… pelo menos mais dez contratos, totalizando, acho que,
se foram 4 bilhões que o senhor pagou aqui aproximadamente, então uns 8 bilhões
gerou de saldo para o senhor.
DANIEL V: Sim, doutora. Entendo que a maneira como foi colocada aqui parece que
existiu uma grande fraude, um grande problema. Só que não é o fato.
Naquele momento, em abril, a gente estava cobrando e pressionando um parceiro para
trazer documentação no âmbito usual de negócios. O Banco Central me fez uma
comunicação em março, 17 de março, pedindo para que a gente explicasse quais eram
esses novos originadores e o que a gente já tinha feito. E foi o que a gente entregou.
Então, na verdade, não existia uma determinação ou não existia um entendimento de
que havia um problema real com as carteiras. Existia uma cobrança nossa para que a
gente tivesse a documentação toda feita. No momento em que a gente entendeu, eu
acredito que foi ali em maio, que a gente entendeu com o BRB que realmente estavam
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faltando documentos e a gente não conseguia essa documentação completa por parte
da TIRRENO, aí sim a gente assina um contrato naquele momento para poder fazer o
desfazimento e a partir daí a gente não tem mais nenhuma negociação com a TIRRENO.
Nesse período, a gente estava cobrando um ambiente normal de cobrança.
DELEGADA: Depois da descoberta dessa questão com a TIRRENO, o senhor consegue
fazer novos negócios com o BRB de cessão de ativos?
DANIEL V: Depois da descoberta com a TIRRENO, sim, a gente continua no rumo normal
dos nossos negócios, cessão de outros tipos de ativos e encerramos essa questão com a
TIRRENO ali.
DELEGADA: O senhor se recorda mais ou menos do valor dos ativos que foram
negociados após a questão da TIRRENO?
DANIEL V.: Não, não me recordo.
DELEGADA: Então, o senhor seguiu e aí o senhor fala que o senhor recebeu uma
notificação do Banco Central em março para que o senhor apontasse quem era o
originador. O senhor deve ter conhecimento da resposta, porque a resposta foi
encaminhada de maneira equivocada pelo Banco Central. O senhor acha que isso
prejudicou o processo de fiscalização?
DANIEL V: Não.
DELEGADA: Porque, no momento que o senhor está originando uma carteira, o Banco
Central, o senhor é uma instituição financeira, o senhor está ali emitindo CCBs, que tem
todo um título, que tem toda uma credibilidade, que gozam de uma autenticidade. E aí
o Banco Central pergunta ao senhor em março quem eram os originadores. O senhor
responde que é um terceiro. O senhor acha que isso atrasa o processo de fiscalização?
DANIEL V: Eu acho que não, doutora. E aí eu espero muito que exista uma grandeza aqui
dos senhores para poder olhar um outro lado da moeda. O próprio Banco Central relata
aqui desde 2024 que ele me audita diariamente todas as operações do banco.
Todas. Diariamente. Ele mesmo, não sou eu que estou falando. O próprio Banco Central
fala isso. Não sei se nesse relatório ou em algum outro relatório. A conversa com o Banco
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Central era diária. Várias vezes ao dia. Quando ele me faz aquela pergunta, dentro do
sistema, foram respondidas as associações, porque tinham sido contratadas as
associações para fazer a cobrança dessa carteira. Como eu disse no começo, existia uma
estrutura terceirizada dentro do banco para poder fazer esse negócio do consignado
acontecer.
Então, como era uma coisa nova, a gente não tinha estrutura própria. Então, logo que se
faz o negócio, se contrata as associações para fazer a cobrança. Provavelmente, dentro
do sistema, ali já estava registrado como sendo as associações.
Então, a resposta não foi equivocada nesse sentido. O Banco Central não pediu para
aprofundar oficialmente, mas a gente debateu e as equipes debateram ao longo dos
meses todos, não sendo, depois da nossa resposta, emitida nenhum comunicado para o
banco para perguntar, para aprofundar, para falar que existia algum erro com relação
àquilo. Então, eu não acredito que isso atrapalhou.
Isso foi uma resposta de uma pergunta superficial com uma resposta superficial em um
ambiente que ainda era um negócio normal.
DELEGADA: Quanto a isso, essa questão das respostas, porque o BRB foi feita a mesma
pergunta, quando justamente se percebeu que a resposta do senhor não era adequada,
já que os CPFs vinham de várias regiões do país. E aí são encaminhados os contratos,
vem à tona a questão da TIRRENO, a empresa
DANIEL V: A pergunta para o Master foi uma pergunta superficial e a resposta também
foi ali dentro que estava cadastrado no sistema.
DELEGADA: Quando o BRB se manifesta com relação a isso, o senhor Paulo Henrique,
acredito que os senhores têm uma relação, acredito que por todos os negócios que
estavam em andamento. O senhor Paulo Henrique comenta isso com o senhor? Que foi
demandado com relação à TIRRENO, às documentações?
DANIEL V: Sim, esse assunto começa, a gente não tem uma comunicação formal, mas
um assunto que começou a permear as relações, porque ele estava sendo cobrado,
acredito, internamente até pelo próprio Banco Central, de completar as informações e
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aí que a gente entra em ação para poder entender, para poder reunir com as pessoas e
tentar buscar as informações para poder completar e regularizar a parte documental.
DELEGADA: O senhor atua no momento para auxiliar o senhor Paulo na produção das
respostas que seriam encaminhadas para o BRB ou não?
DANIEL V: Resposta não me recordo, me recordo de atuar para tentar resolver a situação,
mas não acredito que eu tenha ajudado em respostas do banco, a não ser que existissem
dúvidas com relação ao próprio negócio.
DELEGADA: Já adiantando um pouco com relação às soluções que foram dadas, as
carteiras que o senhor cedeu ao BRB, elas foram cedidas sem coobrigação do Banco
Master. O senhor cedeu até para não haver uma exposição do limite de exposição ao
BRB, enfim, é isso que consta no relatório.
DANIEL V: Sim, mas esse tipo de negócio no contrato a gente responde por vícios
documentais, a gente não corre o risco do crédito, mas se existisse um vício documental
e ele, mais do que um negócio normal nosso, porque quando era uma originação nossa,
a gente tinha muita convicção de ter todo o passo a passo, nesse caso, mais ainda, a
gente responderia por vícios documentais, por isso a gente deixou muito bem
resguardado, no outro ponto, que se existisse algum vício, a gente não só executaria a
cláusula para poder desfazer a operação, como quem comprasse também sub-rogaria
nos mesmos direitos.
Então isso foi previsto já em contrato em razão disso mesmo.
DELEGADA: E aí a outra dúvida que existe um extrato, esse extrato aqui do Banco Master,
de uma conta, e a dúvida que surge quando nós lemos o relatório é se essa conta era
uma conta escriturária ou se existia, de fato, esse saldo aqui.
DANIEL V: Claro que existe, estava no balanço. O fechamento de balancetes do balanço
do banco, uma conta reserva que a gente chamou ali e essa conta e esse extrato prova
nosso ponto. A operação não foi executada, a gente consideraria que ela seria executada
por completo quando a agente tivesse toda a documentação e aí sim a gente registraria
na receita e faria todo o registro normal de uma transação tanto da compra quanto da
venda. Então ficou em uma conta transitória do banco que foi compartilhada inclusive
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com o Banco Central que no balancete, ali no balanço de fechamento, no dia 15 quando
eles fazem um informativo sobre isso no relatório, a gente já tinha mandado
formalmente o balancete do banco e já existia uma discussão sobre isso porque era uma
conta transitória justamente porque a gente aguardava a conclusão ou não da transação.
Então eu vi ali também falando que o registro contábil não havia sido feito da maneira
correta e o próprio banco central indicou na época, porque eu não sou perito de
contabilidade, mas existia algumas formas de fazer a contabilização e no nosso
entendimento a gente tinha feito da maneira correta e eu acho, que se não me engano
houve até uma mudança depois da indicação do Banco Central, uma pequena mudança
na maneira da contabilização disso. Mas a contabilização não ter sido feita com a Receita
e não ter sido apurado o prêmio pelo Banco é a maior prova que a gente esperava. A
operação não se concretizou.
DELEGADA: Eu não sei como é que funciona de fato eu não conheço a estratégia de
negócios que era adotada pelo senhor, mas hoje em dia mesmo um cliente pequeno tem
um gerente de conta né nós temos eu recebo um salário que é extremamente médio e
tem um gerente que cuida da minha conta me oferece produtos. E pelo mesmo pelo
contrato que foi assinado o contrato previa rendimentos nessa conta.
DANIEL V: Era uma conta reserva remunerada pelo que eu entendi que foi criada.
DELEGADA: Porém eu não consigo enxergar nenhum rendimento aqui eles os valores
que são colocados eles são correspondentes aos valores que estão no contrato O senhor
acha isso um padrão da instituição financeira, essa revisão?
DANIEL V: Eu não vou saber te responder tecnicamente no detalhe contábil, mas eu sei
que era uma conta reserva remunerada que foi acordada, depois operacionalmente seria
mais fácil do que fazer um depósito em CDBs, na verdade é uma questão operacional,
não entendo que houve prejuízo nisso.
DELEGADA: O senhor fala dessa notificação, do desfazimento de todos esses
acordos que ocorreram aqui, do dia 7 de janeiro até o dia 23 de março. O senhor
notificou, a TIRRENO aceitou o desfazimento dos negócios e a cláusula contratual para
isso era a devolução do dinheiro no primeiro dia útil. Nesse momento que o senhor faz,
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o senhor, por iniciativa própria, faz essa cessão de direitos, faz essa notificação, em tese
os direitos já eram do BRB, que o senhor já tinha cedido, o BRB já tinha todos esses
direitos, inclusive essa notificação em tese foi feita por uma pessoa que não tinha esse
poder de notificar a TIRRENO, mas havia umacláusula prevendo a devolução desse
dinheiro.
Essa devolução ocorreu porque o saldo, a posição do saldo aqui em 4 de junho é de 6
bilhões, continuou assim, não houve devolução de dinheiro.
DANIEL V.: Depois houve, mais para frente houve.
DELEGADA: Mais para frente a TIRRENO devolveu o dinheiro para o senhor ou para o
BRB?
DANIEL V.: Não, mais para frente a gente assina contratos e aí inicia-se a devolução para
o BRB e a recompra das carteiras do BRB.
DELEGADA: Há outra dúvida que me gera, então até hoje o dinheiro estaria lá? Salvo…
se não fosse a liquidação do banco, esse dinheiro ainda estaria l?
Porque as tranches, o BRB faz um desfazimento em forma de tranches mensais, que vão
começar o pagamento agora em janeiro, então esse dinheiro aqui permaneceria no caixa
do Banco Master?
DANIEL V: Permaneceria, mas depois a gente acabou acelerando isso, essas trocas, foi
feito um contrato, se não me engano, na época do próprio BRB direto com a TIRRENO e
de outra parte com o Master. E aí a gente acabou acelerando e no final a gente tinha
feito a troca completa, ficou faltando formalmente a transferência de, se não me engano,
1.4 bilhões de ativos que tinha garantia ali para poder fazer.
DELEGADA: O senhor está falando relativamente ao prêmio ou relativamente a
isso aqui? Porque assim… eu entendi que o senhor devolveu o prêmio, ou dentro do
prêmio, ou o senhor devolveu tudo?
DANIEL V.: Devolvemos esses valores mais o prêmio.
DELEGADA: O senhor devolveu esses valores mais o prêmio, mas o dinheiro continuou
na conta, então?
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DANIEL.V: Não, depois ele foi baixado, claro que não.
DELEGADO (OUTRO): Esse extrato é de junho, a operação tinha sido, uma parte da
operação com a TIRRENO, não BRB, tinha sido desfeita em… março.
DELEGADA E DANIEL V: Não, não… em abril.
DANIEL V.: Ali a gente começa a fazer notificações, mas que ela começa a ser desfeita
mesmo foi em julho.
DELEGADO (OUTRO): Não, mas a notificação que os senhores fizeram a TIRRENO, de
desfazimento com aceitação, inclusive, se deu meses antes?
DANIEL V.: Sim, mas é um trânsito normal de negócio, a gente notifica e depois eles
contranotificaram, a gente se reuniu.
DELEGADO (OUTRO): Contratualmente, o senhor teria condições, o banco teria
condições de ter se ressarcido, o Banco Master, imediatamente no dia seguinte, é o que
estava no contrato.
DANIEL V.: Sim.
DELEGADO (OUTRO): O que impediu que isso fosse feito e que isso ficasse na conta…?
DANIEL V.: Foram negociações comerciais ali, porque até esse momento, doutor, não se
tinha noção que não teria documentação, a gente estava pressionando ali para poder
receber a documentação e continuar com a carteira. (4:02) O interesse era que o negócio
continuasse.
DELEGADO (OUTRO): Entre o Master e a TIRRENO, entre o Master e o BRB, entre o BRB
e a TIRRENO, quem é que estava na mesa de negociação?
DANIEL V.: Acho que todos, todos estavam conversando. Então, houve uma tratativa
comercial normal do negócio desse tamanho, a gente notifica, eles contranotificaram, a
gente se sentou na mesa etc.
DELEGADO (OUTRO): É que parece um pouco fora do padrão que dois bilhões fiquem
flutuando numa conta quando o banco já poderia ter recuperado esse valor.
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DANIEL V.: Não é flutuando, o recurso estava, a gente não liberou nenhum recurso para
a TIRRENO, o recurso estava dentro de casa do Banco Master. Tanto que não teve
prejuízo para o BRB, esse negócio todo que a gente está tratando, a gente não cobrou
nenhum cliente na ponta, então não tem nenhum cliente que teve
qualquer tipo de prejuízo.
DELEGADO (OUTRO): Não teve prejuízo para o BRB por que esses créditos foram
trocados por outros?
DANIEL V.: Porque a gente devolveu o dinheiro e depois eles se compraram outros ativos
nossos. Ou seja, a operação não foi concretizada. O famoso 12 bilhões, ele não existiu
prejuízo para sequer um cliente na ponta final, porque a gente não cobrou, a gente só
cobraria quando colocasse na receita, aí sim entraria para o
nosso sistema de cobrança os clientes individuais e para o BRB se a gente não tivesse
desfeito a operação
DELEGADO (OUTRO): Outra pergunta já a partir da sua afirmação. Quer dizer que os
tomadores de crédito ganharam um espaço de waiver de 3, 4, 5, 6 meses? Eles não
tinham obrigação de pagar? Embora tivessem assumido essa obrigação contratualmente
em tese na ponta.
DANIEL V.: A gente estava debitando os valores ali da conta da própria TIRRENO. Ou seja,
do valor a pagar que a gente teria no final, se eles cobraram lá na ponta, se eles
receberam ou não, dentro do próprio contrato com a TIRRENO, quem suportaria o risco
de crédito durante esse período de concretização do negócio era a ponta, não era o
máster. Então, o valor integral das parcelas, você vê na conta dele, era baixado para
poder fazer frente às parcelas durante esse período.
Ou seja, a gente não liberou nada para a Tirrena e não fizemos nenhuma cobrança para
o cliente. Por isso que eu falo que não teve ninguém com prejuízo nessa história.
DELEGADA: Outra dúvida que eu tenho. O senhor acaba de mencionar a questão do
Henrique Peretto, que o senhor conhecia, que ele trouxe esse produto para o senhor. O
senhor deu o aval, deu o ok, não é isso?
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DANIEL V.: Sim.
DELEGADA: O senhor acompanhava a entrada de dinheiro, acho que isso…
DANIEL V.: Sim
DELEGADA: E, do outro lado, como foi conseguir esse negócio? Como foi que o senhor
negociou com o BRB a cessão dessas carteiras quase imediatas para oBRB? O senhor
discutiu com o senhor Paulo Henrique? Quem aproximou o senhor e o Paulo Henrique
para essa tratativa relativa a essas carteiras?
DANIEL V.: Na verdade, eu já o conhecia, a gente já vinha fazendo o negócio há
quase um ano, diversos negócios, e aí vale lembrar, ele pode falar mais do BRB do que
eu. O BRB, quando a gente se conhece ali em 2024,no princípio de 24 ou no meio de
24,o BRB era um banco que não estava dando resultado, era coerente com o banco de
mercado, e depois que a gente começa a fazer negócio ele começa a dar resultados,
porque o Banco Massa estava com uma boa originação de produtos, a gente fez diversos
negócios, então esses novos negócios ali da
TIRRENO estavam na esteira dos negócios que a gente já havia fazendo no ano anterior,
não foi uma novidade, a única novidade era o de terceiros, e não uma originação própria,
e aí sim a gente acabou tendo que desfazer e não concluir a operação.
DELEGADA: Mas o senhor notificou, o senhor Paulo Henrique, que essa carteira da
TIRRENO era relativa a um originador diverso do Banco Massa ou não? O senhor seguiu
o negócio como…
DANIEL V.: Seguiu, acho que houve conversas com o próprio Banco Central, que a gente
iria iniciar, como eu disse o Banco Central acompanhava diuturnamente o banco. Esse
negócio da própria TIRRENO, antes de iniciar, foi comentado com o Banco Central, como
cada passo que a gente tomava no banco ele foi comentado com o Banco Central. E aí a
surpresa de tudo o que aconteceu, porque o Banco Central estava lá dentro, o Banco
Central me notifica em março e de repente em 17 de novembro sou preso, sem nenhuma
outra pergunta depois de março. É a dúvida que fica para mim, porque o Banco Central
não só sabia como acompanhou esse processo da aquisição da TIRRENO, da venda para
o BRB, das trocas que foram feitas, do desfazimento e não conclusão da operação.
17
DELEGADA: Na verdade, isso tem só um delay, porque ele pergunta ao senhor, em
março, quem são os originadores. Então, se o Banco Central tivesse ciência, ele não
precisaria perguntar. O senhor não concorda comigo?
DANIEL V.: Sabe quantas comunicações eu tenho com o Banco Central em um ano? Eu
estava fazendo a conta, quase 400 de cartas. E sobre esse tema tem uma. Sempre que
eles havia dúvidas de outros créditos, eles perguntavam, aprofundavam, mandavam
fazer marcações. Esse ativo aqui não é bom, tem que marcar para baixo. Isso é a rotina
do banco, é o dia a dia. O banco tem ativos que a gente faz que são bons, tem ativos que
são ruins. O Banco Central está ali e fiscalizava o banco diariamente. Ele próprio
reconhece que, no ano de 2024, repassou toda a carteira e mandou fazer vários ajustes
em diversos ativos de crédito nosso. O próprio Banco Central. E a gente, obviamente,
sempre seguiu e obedeceu ao que o Banco Central fazia. Sobre esse caso, não foi pedido
nada, além dessa carta de março.
DELEGADA: Sim, mas o senhor concorda comigo? Se ele te pergunta, em março, em
janeiro, quando inicia, ele não tinha ciência.
DANIEL V.: A gente tinha conversas sobre esse tema diariamente com a área de
supervisão. Eles mesmos reconhecem, no relatório do dia 18 de abril, que acompanha o
banco diariamente todas as operações. Não tinha nada que acontecesse no banco que
o Banco Central não acompanhasse ou que não soubesse.
DELEGADA: Então, o BRB também estava ciente de que os créditos, essas novas carteiras,
essas novas CCBs que estavam sendo cedidas, o originador seria TIRRENO. O BRB
também tinha essa noção.
DANIEL V.: Não sei se, no início, sabia que o nome era TIRRENO, mas tinha a noção de
que eram créditos de terceiros, que a gente estava iniciando um novo tipo de produto e
tipo de originação.
DELEGADA: Vou ler aqui a pergunta, uma próxima pergunta. Se bem que ela é repetida
de tudo o que já foi perguntado ao senhor. Se o senhor fosse presidente do BRB, já havia
um histórico relativo à recompra de carteiras nesse trâmite, nesse período que o senhor
fala da intensificação dos negócios, que foi em 2024, segundo semestre de 2024. Já tinha
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havido essa questão de uma recompra de uma carteira muito menor. Em seguida, veio a
questão da TIRRENO, que foi substituída de uma maneira que, ao menos o Banco
Central, não conseguiu identificar o valor real dos ativos pelos quais houve a
substituição. Vou deixar o senhor falar. O senhor continuaria negócios com essa
instituição financeira se o senhor fosse o BRB? Se o senhor já tivesse passado uma série
de questões.
DANIEL V.: Sem dúvida nenhuma, o Banco Master só trouxe resultado para o BRB,
resultados históricos. Todos os negócios que a gente fez. A recompra de carteira não é
algo fora do comum.O que foi fora do comum foi o volume dessa recompra que teve que
ser feita para desfazer toda uma operação, em função do momento que a gente estava
vivendo ali e da fusão paralela, porque aí existia toda a mídia em cima. Porque, senão, a
gente teria feito com o tempo e talvez teria ficado com parte dessa carteira ali. Existia
uma pressão entre os negócios das duas instituições que atrapalhou um pouco também.
Mas o Master fez negócios com outras instituições financeiras e a recompra é usual,
sempre existiu com essas outras instituições, na maior boa-fé e sempre primando por
essa questão. Quando existia algum vício, alguma coisa, a gente sempre trocava na
própria ordenação nossa. A diferença é sempre que isso era um percentual pequeno e,
nesse caso, acabou se tornando uma operação inteira.
DELEGADA: O senhor considera que o volume dessas operações e a velocidade também
que elas aconteceram, aconteceram muito? Tiveram relação, uma correlação direta com
a vontade do BRB em adquirir o banco do senhor?
DANIEL V.: Eu acho que os negócios…Eu acho que o negócio da aquisição do BRB, do
Master, aconteceu por conta das negociações de ativos que a gente vinha fazendo e que
estavam dando resultado. E, obviamente, naquele momento ali, no início de 2025, após
ter sido discutido a seis mãos com o Banco Central a aquisição do BRB, a aquisição do
Master por parte do BRB.
Quando a gente ingressa em 28 de março com o pedido, não era novidade para o Banco
Central. Todo o Banco Central já sabia e tinha participado da solução porque era uma
solução de mercado pelas questões que eu falei no início da minha fala, pelas pressões
que a gente estava sofrendo regulatórias e mercadológicas. Então, o Banco Master tinha
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excelentes ativos, excelente originação e o BRB tinha um tipo de captação que era
diferente, mais barato que o do Banco Master e a junção ali, ela criaria um banco muito
melhor e maior.
Então, essa interseção e intensificação de negócios obviamente aconteceu por conta
disso também, que estava acontecendo em paralelo.
DELEGADA: Certo. Então, o senhor obviamente reconhece que existe toda uma
facilitação desse negócio, do negócio dessa monta em razão desse interesse.
DANIEL V.: Não acho que houve facilitação. Nenhuma, ao contrário. As carteiras
oferecidas sempre ao BRB passavam pelo compliance deles, passavam pelo crivo de
crédito deles, tanto que dos nossos ativos, ainda que os nossos próprios auditados do
Banco Master.
DELEGADA: O senhor não considera que houve uma sinergia para que fossem aprovadas
as compras?
DANIEL V: Zero. Nenhuma, nenhuma.
Passou pelo crivo normal e os filtros normais dele, tanto que do que era oferecido ao
BRB sempre voltava com uma aceitação de parte. Então, eles sempre tiveram um crivo
próprio deles lá também com isso. E, pelo contrário, ainda que a gente estivesse em
projeto, em trâmite de um negócio societário, eu e o presidente do BRB, o Paulo
Henrique, tivemos diversas discussões à época sobre essa questão de ativo, ele
defendendo a instituição dele e eu defendendo o Banco Master.
DELEGADA: Certo. A gente está em um caso midiático toda hora, acho que é o caso do
Brasil. Então, o tempo todo notícias e muito se comenta sobre as relações do senhor, as
influências, o senhor tem as melhores bancas.
E uma pergunta que acho que precisa ser feita para o senhor é se em algum momento
algum dos seus amigos políticos procurou viabilizar esse negócio, se o senhor teve
contato com o governador de Brasília, se o senhor poderia fazer algum comentário
relativo a isso.
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DANIEL V.: Eu queria só dizer o seguinte, se eu tenho tantas relações políticas, como
estão dizendo, e se eu tivesse pedido a ajuda desses políticos, eu não estaria com a
operação do BRB negada, eu não estaria aqui de tornozeleira, eu não teria sido preso e
estava com a minha família sofrendo o que a gente está sofrendo. Então, acho que,
primeiro, vale a pena considerar isso. Segundo o negócio com o BRB foi construído
tecnicamente dentro do Banco Central, como eu disse anteriormente, e aí fica a
frustração minha, porque não era para a gente estar aqui nessa sala e com essa
exposição toda para o país, porque o prejuízo, no final, não foi só meu, foi do sistema
financeiro.
Até o dia 17 de novembro, todos os investidores do Banco Master estavam recebendo
em dia fundos de pensão, clientes, pessoa física, todo mundo estavam recebendo em
dia, com muito custo, porque eu estava sofrendo uma pressão que já não era de hoje, já
era de muito tempo. Heroicamente, inclusive, a gente foi porque os nossos ativos eram
bons, contra tudo o que disseram desde o início.A gente conseguiu ceder ativos próprios,
ativos do banco, conseguimos honrar todos os compromissos até aquele dia, que teria
tido oportunidade de ter um desfecho muito favorável.
Então, não teve facilitação política. Eu tive com o governador, sim, algumas vezes, porque
ele era um controlador indireto, mas não teve nenhum tipo de questão tratada, nesse
caso o BRB, que não fosse técnica. Talvez, no Brasil, se não fosse assim, eu não estava
aqui e teria dado certo. Acho que a conclusão desse negócio é a maior prova disso, como
foi o desfecho.
DELEGADA: Sim. Então, o senhor nega qualquer tipo de pedido a outras autoridades
parlamentares, secretários de Estado, diretores de órgãos públicos etc.?
DANIEL V.: O Banco Central tem discricionariedade. Tanto tem discricionariedade que
uma diretoria conseguiu criar esse alvoroço todo.Foi a diretoria de organização
financeira, porque a própria diretoria de fiscalização tinha interesse em criar uma
solução de mercado até um determinado momento e evitar esse caos que está se
instaurando no país por conta disso.
DELEGADA: Então, o senhor reconhece que havia, de certa forma, uma crise de liquidez
na instituição financeira do senhor?
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DANIEL V: Existia uma crise, não era de hoje, mas o Banco Master sempre foi solvente,
sempre teve muito mais ativo que passivo e sempre honrou todos os compromissos até
o dia 17 de novembro.
E essa crise de liquidez, há de se ressaltar, e está no próprio relatório do Banco Central,
foi criada por duas coisas, por mudança de regulação com a pressão dos grandes bancos,
que mudaram por duas vezes a regra do FGC, porque o mercado se julga dono ali do
fundo que é criado justamente para criar competição no mercado. Essa mudança
pressionou a captação do banco, porque todo o plano de negócio desde 2018, que a
gente entregou para o Banco Central, ele era baseado no FGC.
O plano de negócio do Banco Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de
errado nisso, essa era a regra do jogo. E após a gente começar e começar a crescer,
muda-se a regra do jogo. Quando se muda a regra do jogo, a gente precisa se adequar,
a gente vai para outros meios de captação e aí inicia-se uma campanha contrária,
reputacional contra o banco, que já foi várias vezes provada que não é realidade, pelos
mesmos veículos de mídia que são de propriedade de concorrentes, essa é a grande
realidade.
E o objetivo meu, ao longo de todo esse prazo, eu estou contando isso aqui, nunca foi
me fazer de vítima, eu entrei no mercado concentrado, sabia quem eram os donos do
mercado, agora, desde o primeiro momento que existia essa pressão de liquidez, em
todo comentou fui no Banco Central quase que diuturnamente para criar soluções e
evitar um prejuízo para o mercado, não era só para mim e não queria deixarei tenho 42
anos de idade, eu não queria que tivesse acontecido isso e, na verdade, eu tinha
arrumado uma solução para evitar isso, porque, independente de transações, de
questões, o banco tinha centenas de milhares de transações por dia, obviamente, é essa
que era muito relevante, é essa que a gente está tratando da TIRRENO.
Independente de questões, acho que a proteção do sistema financeiro deveria ter sido
a questão primordial e era o que eu estava fazendo, s sentava com concorrentes, tentei
fazer negócio com concorrentes, sentei com investidores estrangeiros, no negócio do
BRB existiu uma gincana propiciada pelo Departamento de Organização Financeira que
a gente foi se adequando a todos os pedidos, acreditando que aquele negócio daria
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certo, muda o negócio, diminui a transação, você precisa sair, que a gente não te quer,
eu saio, você precisa sair do conselho, saio, você precisa não ser controlador, eu não sou
controlador, você precisa vender ativos para outro banco, eu vendo, eu fiz tudo o que
precisava para evitar isso. E a minha surpresa é que, mesmo tendo cedo feito tudo, na
hora que eu encontro a solução final, o que é muito curioso, no dia 17, porque o que
está acontecendo de prejuízo e toda essa exposição poderia ter sido evitado, não que
não tivesse investigado, acho que essa investigação pertinente, é um negócio grande, de
volume grande, acho que tem total pertinência a investigação.O que não precisava é ter
cumprido o papel de eu ter passado o que passei e que estou passando com a minha
família e os investidores do banco também.
DELEGADA: Agora você chegou num ponto da prisão e existem algumas perguntas
relativas à reunião que o senhor fez no dia 17, que foi o dia que foi efetivada a prisão do
senhor. E aí um outro tópico também que se comenta, o senhor falou, eu não quis
interrompê-lo, de como é que se fala, da narrativa, controle de narrativa por grandes
bancos. Outra questão também que se comenta sobre o senhor é que o senhor também
teria controle de narrativas, o senhor teria acesso a informações privilegiadas. O senhor
considera isso verdadeiro ou falso?
DANIEL V.: Eu considero falso. Na verdade, eu fiquei sabendo, e ainda hoje fico sabendo,
de muitas coisas pela mídia. A própria acareação hoje, eu fiquei sabendo muito do que
iria acontecer pela mídia.
E muitas informações, surpreendentemente, das coisas que aconteceram comigo,
também fiquei sabendo pela mídia, esse próprio negócio. Essa própria operação, que
era lá da décima vara, assim como diversos outros inquéritos que eu sabia que estavam
se abrindo contra o banco, nessa tentativa, não só pela exposição de mídia, eu acho que
a exposição da mídia também pelo negócio com o BRB, que, obviamente, gera interesse
legítimo de autoridades para poder investigar, isso é natural, mas também outras
proporcionadas para poder criar ataques contra o banco. Então, assim como essa,
diversas outras, eu tinha mapeado pela própria mídia, que soltava algum repórter que
vinha perguntar.
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DELEGADA: Aconteceu uma coincidência que, no dia da prisão do senhor, o advogado
do senhor protocolou uma petição na VARA correta. Na VARA correta, ele protocola um
pedido ao juiz…
DANIEL V.: Feito isso diversas vezes, em outros locais, assim que saiu uma matéria.
DELEGADA: E aí, por isso, o senhor, de algum modo, teve essa informação da VARA, onde
estava ocorrendo o processo do senhor?
DANIEL V: Tive, saiu uma notícia disso. Teve repórteres ligando no…A gente já sabia, na
verdade.
Lá atrás, quando foi feito o negócio do BRB, e o meu advogado aqui se lembra, quando
teve o negócio do BRB, teve aquela exposição, já se sabia, porque tinha sido anunciado
na mídia, que existia um processo ou um inquérito para apurar a compra do BRB.E o
Master. Acho que você mesmo foi no próprio pódio, teve reuniões, foi atrás para
entender, disponibilizar, como a gente faz em vários dos inquéritos.
DELEGADA: O Sr. já teve acesso a algum documento de natureza sigilosa?
DANIEL V.: Não me recordo, acredito que não. A não ser que tenha sido algum repórter,
alguém que tenha me passado, mas não me recordo.
DELEGADA.: Certo. O que foi tratado na reunião do dia 17 de novembro de 2025 no
Banco Central, que é o documento que o senhor usou para afastar a questão de fuga, da
hipótese de fuga? O que o senhor lembra?
DANIEL V.: A questão de fuga é, desculpe, uma questão completamente fora de
contexto. Uma fuga de alguém que avisa a Polícia Federal, acho que na quinta-feira. Eu
já tinha viajado uma semana antes para tratar com os mesmos investidores, amplamente
divulgado.
Já tinha amplamente divulgado, não foi só na reunião do dia 17, já existia um
planejamento do que aconteceu ali em Dubai que já era anterior, que era justamente o
que estava se anunciando ali, em definitivo no dia 17, porque na semana anterior eu já
tinha anunciado ao Banco Central que a gente faria na semana seguinte, na quarta-feira
da semana anterior. Falei, olha, eu tinha voltado de Dubai e dos Emirados Árabes, eu
24
tinha voltado, foi quando a gente organizou finalmente como seria a transação. Eu tinha
voltado uma semana antes, eu estava lá, na semana anterior.
Na quarta eu aviso o Banco Central, ainda sem detalhes, porque a gente estava
discutindo a parte contratual, e aviso que, na outra semana, a gente faria o anúncio de
como seria a venda de cada instituição.
DELEGADA: O senhor comunica então esse assunto ao diretor de fiscalização?
DANIEL V.: Eu aviso na semana anterior que a gente conseguiu fazer uma transação que
estava dentro do plano de solução que a gente já tinha apresentado. Após a negativa do
BRB, após tudo o que a gente tinha passado, a gente conseguiu arrumar uma outra
solução para não dar prejuízo ao mercado, me desdobro, fui quatro vezes a Dubai no ano
para poder tratar com esses mesmos investidores e com outros que acabaram
aparecendo. Eu aviso na semana anterior…
DELEGADA: O negócio já estava concluído quando o senhor decidiu viajar?
DANIEL V.: Nessa semana, eu pensei que estava concluído, faltavam assinaturas.
A primeira assinatura aconteceu na segunda-feira, que foi a da Fictor. No dia seguinte,
iria acontecer a venda do Eubank para o fundo Mubadala, que é um fundo
internacionalmente conhecido. A gente estava com o contrato pronto, seria assinado no
dia 18 pela manhã.
E, nos outros três próximos dias, a gente ia assinar a venda do banco de investimento e
a entrada dos investidores estrangeiros junto com a Fictor nacompra do banco. Ou seja,
era um desfecho de final feliz para o sistema financeiro. Não era só para mim, que foi
infelizmente interrompido pela operação.
DELEGADA: Agora, acho que é o bloco final das perguntas. Com relação ao destino dos
recursos, de todo esse dinheiro, porque a liquidez… O senhor recebeu o dinheiro do
banco, o senhor recebeu o dinheiro do BRB e trocou por ativos. O BRB, inclusive, está
respondendo uma medida prudencial relativa ao valor real desses ativos que foram
recebidos por conta desse dinheiro.
25
DANIEL V.: Bom, primeiro, a senhora já citou duas vezes essa questão dos ativos. Os
ativos que foram cedidos para o BRB ao final são ativos auditados dentro do portfólio do
Banco Master, que, como eu disse no começo, é diuturnamente auditado pelo Banco
Central. E a gente vendeu alguns deles, inclusive com deságio, dando vantagem para o
BRB.
Naquele momento, a gente acreditava que, ao final, seria ainda concluída a transação da
fusão. O dinheiro de uma instituição financeira não é fungível. Você tem um caixa, que
é a conta reserva central. Então, nesse período, por exemplo, do BRB, eu mesmo aportei
quase 6 bilhões de reais de vendas de ativos para poder arcar com os compromissos do
banco, resgate de clientes etc. E isso aí não é só o Banco Master, todos os bancos
funcionam assim. Você pegar um grande banco e você tem as contas que são contas
virtuais, cadastradas, e você tem o caixa reserva.
Geralmente, o banco não tem a disponibilidade do caixa de 100% de todas as contas ali,
porque ele aloca em diversos ativos e essa é a gestão de risco e de liquidez que cada
instituição faz. Então, o recurso que veio da conta ESCO ficou nas atividades normais da
conta reserva do banco, como qualquer instituição financeira faz.
DELEGADA: Dentre as instituições que foram liquidadas do Banco Master, escapou o
Wilbank, não é isso? Ele não foi liquidado .Esses ativos do Wilbank são ativos
semelhantes ao que o senhor havia cedido para o BRB. Por que não houve uma
substituição pelos ativos do Wilbank, já que aparentemente são bons ativos?
DANIEL V.: Acho que houve também dentro do portfólio que a gente cedeu para o BRB.A
gente fez um mix. Vamos lembrar que na época que a gente devolve odinheiro para o
BRB e ele compra outros ativos, o BRB estava interessado e assumiu o Master.
Ou seja, já tinha avaliado todos os ativos do Master e tinha interesse em adquirir o
Master. Fez auditoria, passou em todas as esferas do BRB. Então, a gente fez um mix dos
ativos que já existiam dentro do próprio banco.
Não houve em nenhum momento o meu, pelo contrário. Acho que pode ser perguntado
ao presidente do BRB. Em todo momento, do início ao fim dessa transação, não me furtei
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a resolver o tema da melhor maneira possível e sem criar prejuízo nenhum para o BRB,
tanto que não criou.
DELEGADA: Na verdade, é que, por exemplo, a natureza – e isso também não vou saber
explicar, mas o que a gente estudou – é que a natureza é diversa. Quando você compra
uma carteira de crédito consignado, quando você compra um produto, quando você
compra um produto E, em seguida, ele gera. Às vezes você compra um outro ativo que
não tem essa liquidez, esse rendimento tão explícito.
PARTE 2 –
DELEGADA: E, em seguida, ele gera. Às vezes você compra um outro ativo que não tem
essa liquidez, esse rendimento tão explícito.
DANIEL V: São dois tipos de ativos.
Às vezes a gente tem outros ativos que o Banco Master, o nosso modelo de negócio, era
um mix do consignado, que eram ativos realmente de mais curto prazo, e outros ativos
de mais longo prazo, que geralmente dão até mais rentabilidade. Esse era o modelo que
a gente estruturou o nosso negócio, e é um modelo que não só o BRB estava interessado,
como investidores estrangeiros e outros investidores. A gente vê muito na mídia as
pessoas criticando, criticando o modelo nosso, mas até, como eu disse, até o dia 17 a
gente estava dando resultado e estava solvente dentro do mercado.
Então, é um modelo que se provou operacionalmente bom ao longo do tempo. Certo ou
errado, se a gente errou, é uma questão de opinião de negócio. Mas os ativos, o mix de
ativos nossos, como eu disse antes, eram constantemente auditados pelo Banco Central.
E a precificação desses ativos é a gestão de risco, doutora. Então, o Banco Central atua
com diligência nisso, sempre no seguinte sentido, esse ativo aqui está no seu balanço
por 10 mil, mas ele tem um prazo de recebimento mais longo. Então, a gente precisa
aplicar uma medida prudencial maior.
Então, a gente rebaixa esse ativo de 10, ele passa a valer 5 no balanço. Essas são os
pedidos de provisão que o Banco Central menciona, inclusive, que ele fez em diversos
ativos nossos. Com toda a pressão de fora, de mídia, etc., a gente tinha um nível de
provisão dos ativos de longo prazo extremamente pertinente com cada um deles.
Isso é uma regra de ponderação de risco e de basileia que a gente sempre seguiu a risca
e sempre foi auditado pelo Banco Central. Por isso que, quando eu falo dos ativos que a
gente entregou para o BRB, não é que estavam fora, eram de outros, eram ativos já
auditados dentro do Banco Master.
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DELEGADA: Entendi. Com relação ao destino dos recursos ainda, alguma parcela desses
recursos que foram recebidos do BRB ou do senhor? O senhor tem bens no exterior,
contas no exterior?
DANIEL V: O banco tem, a gente tem operações fora do… A gente estava iniciando uma
operação fora do país. Talvez eu tenha sido uma das pessoas mais escrutinadas no Brasil
antes dessa operação, antes, porque já havia pressão de mídia. Tenho todos os meus
bens declarados, impostos altíssimos pagos ao longo do tempo, porque já existia esse
escrutínio por parte do próprio Banco Central, que acompanha não só o banco, como a
minha vida já há alguns anos.
DELEGADA: O senhor fala muito da questão do Banco Central, da atuação do Banco
Central, que, de certa forma, o senhor considera que foi prejudicial, a sua atuação, mas,
ao mesmo tempo, a gente precisa só pontuar aqui a questão de 12 bilhões de CCBs
falsas, que foram… O senhor falsificou, o banco do senhor emitiu esses títulos e
conseguiu fazer dinheiro com base nessa atuação que é criminosa.
DANIEL V: Desculpe, mas não concordo. Esse negócio não foi realizado.
E eu não sei quais os créditos são bons ou são ruins, têm documentos ou não. Eu não
tenho como saber que não foi o banco que originou. E o negócio não foi realizado, afinal.
Então, não existiu ação criminosa minha em nenhum momento e nem do banco. A
obtenção da vantagem não é… Se existisse alguma ação criminosa, o banco tinha que
ter tido alguma vantagem e alguém tinha que ter tido algum prejuízo, o que não
aconteceu.
DELEGADA: Mas as CCBs foram emitidas? O senhor imprimiu, porque tem no nosso
processo. As CCBs, elas existem.
DANIEL V: Desculpe, mas a doutora está focada em um ponto que é um ponto
operacional do processo. Para você trazer um crédito para dentro de uma instituição
financeira, sempre tem um rito.
E esse rito, parte desse rito é a emissão de uma CCB. Agora, tanto o negócio não foi
concretizado que a gente não registrou nenhum prêmio. Eu poderia ter registrado o
prêmio da operação da venda para o BRB.
Como a gente tinha um contrato que dependia ainda de ser performado, a gente o
deixou em uma conta transitória. Eu poderia ter registrado o prêmio, eu poderia ter
cobrado de clientes. A gente não teve nenhuma vantagem com o negócio, afinal.
DELEGADA:Porque essa conta que o senhor mostrou para mim não é a conta do prêmio.
A conta que tem aqui é a conta dos pagamentos da TIRRENO.
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DANIEL V: Mas o prêmio também estava na conta transitória.
Não foi registrado o prêmio no balanço do banco. Ele estava na conta transitória
também. Ou seja, o banco não teve nenhuma vantagem com esse negócio.
Ao longo do tempo, ficou o dinheiro na conta escrow e depois a gente vendeu outros
ativos, a não ser ter vendido os outros ativos depois para o BRB.
DELEGADA: O dinheiro que o senhor recebeu não ajudou o senhor nessa questão
financeira a pagar os seus compromissos?
DANIEL V: A gente cedeu os nossos ativos a preço justo, inclusive com deságio. Os ativos
que a gente vendeu mesmo foi essa carteira.
Por isso que eu tenho que discordar quando a senhora diz que a gente fez um ato ilícito,
que não teve ato ilícito. A transação não ocorreu no final. E é por isso que a gente podia
ter evitado isso aqui tudo.
A transação não aconteceu. Para um crime ou para uma fraude acontecer, alguém tem
que ter vantagem e outro tem que ter prejuízo. Nesse caso, o BRB não teve prejuízo,
nenhum cliente teve prejuízo e o Banco Master não teve vantagem nesse negócio.
Então, se o cara fez algum processo formal errado, se emitiu a CCB, se fez não sei o quê,
são coisas administrativas que o Banco Central poderia ter tratado. Não precisava da
gente estar aqui.
DELEGADA: O senhor acabou de falar aqui que o senhor precisava de dinheiro para fazer,
para pagar os seus vencimentos.
Precisava e conseguia. Os R$12 bilhões não ajudaram o senhor?
DANIEL V: Claro, mas a gente vendeu ativos nossos, vendi carteira, como a senhora diz,
do Will. Eu vendi outros ativos, alguns inclusive com deságio.
E não só esse, eu vendi ativos pessoais nos últimos seis meses. Eu fiz todo o tipo de
esforço para conseguir colocar o dinheiro no banco e honrar compromissos com
investidores. Isso não tem nada de errado, pelo contrário.
29
É uma gestão compromissada com o sistema financeiro e com os investidores.
DELEGADA: Então, no entender do senhor, só existiria um crime se houvesse um
prejuízo, é isso?
DANIEL V: Só existiria um crime se existisse uma transação. Existia um projeto de uma
transação, uma promessa de compra.
DELEGADA: Mas o senhor emitiu as CCBs, confirma?
DANIEL V: Sim, claro. Obviamente, não existe um crédito dentro de uma instituição
financeira sem ter uma CCB. Mas, assim como essas, diversas vezes a gente já existiu
recompra de carteira, desfazimento de operações.
Isso é uma coisa usual. A diferença, nesse caso, foi o tamanho. Mas isso não é fora do
usual.
DELEGADO (OUTRO): Só para deixar claro algumas coisas, especialmente para quem não
é do Estado financeiro. O senhor afirmou várias vezes que não houve operação. Em
outros momentos, o senhor reconhece que houve uma operação em que o banco
recebeu 12 bilhões.
Inicialmente, por esses 12 bilhões, cedia créditos com uma liquidez maior, que eram os
consignados. Esses créditos, depois, o senhor diz em algum momento que alguma parte
foi devolvida, inclusive o dinheiro para o banco BRB, mas o BRB depois usou esse mesmo
recurso para comprar outros créditos. Esses outros ativos com liquidez totalmente
diferente dos primeiros que o senhor negociou com o BRB. Estou correto?
DANIEL V: Correto. Outra liquidez e outro resultado também.
DELEGADO (OUTRO): Exato.
Nós estamos falando de… Então, operação houve.
DANIEL V: Houve, não. Quando falo que não houve operação, foi operação com essas
carteiras.
DELEGADO (OUTRO): Essas carteiras chegaram a ser vendidas e, por problemas vários,
foram trocadas por títulos, por participativos.
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Outro tipo de ativo. Outro tipo de ativo, com outro tipo de liquidez, muito menor liquidez
do que a inicial.
DANIEL V: Aí é variado, porque se tem carteiras lá do Will, por exemplo, que tem a
liquidez anterior a do consignado e outras posteriores.
DELEGADO (OUTRO): Proporcionalmente de quanto nós estamos falando, com maior
liquidez ou menor liquidez?
DANIEL V: Eu não vou me recordar na proporção, mas eu sei que todas elas precificadas.
E lembrando, todos esses ativos, não é que o BRB não tinha o interesse. Ele já fazia parte
de um negócio, de uma transação entre as duas instituições.
DELEGADO (OUTRO): O senhor participou de uma negociação em que o BRB compraria
58% do Master e, obviamente, isso envolveu todo um conjunto de duas diligências
recíprocas. Correto. Certo? O senhor sabia quem ia comprar e o BRB deveria saber quem
estava comprando.
Ou que estava comprando. O índice de liquidez do BRB, nesse momento, olhando as
regras de Basileia, ele era compatível com essa mudança de liquidez da carteira nova de
ativos?
DANIEL V: Eu não consigo responder especificamente pelo BRB, mas eu acredito que
sim. Pelo que eu entendi, pelo que eu ouvi da gestão ali do BRB durante todo esse
período, uma gestão responsável.
DELEGADO (OUTRO): Eu conhecia que o índice de liquidez do BRB, em termos de
Basileia, era muito próximo do prudencial. Ele estava flertando bastante ali com um
problema de liquidez. Isso era um dado que o senhor tinha conhecimento?
DANIEL V: Para te falar a verdade, não. Na verdade, eu…
DELEGADO (OUTRO): O senhor estava vendendo uma parcela significativa do seu
patrimônio a um banco que corria o risco. Eu imagino que, na dua diligência, uma das
coisas que o senhor ia olhar é se esse banco tem risco de liquidez.
DANIEL V: Eu não fiz a diligência no BRB. O BRB fez a diligência no Master, que era uma
aquisição.
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DELEGADO (OUTRO): O senhor estava vendendo os 58%.
DANIEL V: Mas eu tinha informações.
Obviamente, as informações do banco, elas são de bancos, elas são, inclusive, abertas.
No meu entendimento, a questão da liquidez no BRB sempre foi um ponto positivo,
porque ele sempre acessou tipos de captação que o Master não tinha possibilidade, que
é de prefeituras, estados, depósito judicial, um FAN que não era vinculado a plataformas
de FGC. Então, sempre foi, no meu entendimento, inclusive nas conversas que eu tinha,
técnicas com a própria diretoria, isso era um ponto positivo do BRB, a capacidade de
trazer captações novas para dentro do banco.
DELEGADO (OUTRO): Então, só para deixarmos claro, a operação existiu, o BRB
efetivamente deu liquidez ao Master em algum momento com R$12 bilhões e o Master
trocou os bens que vendeu ao BRB no meio do caminho e esses bens eram de liquidez
distintas.
DANIEL V: Distintas e que, no meu entendimento, gerou resultados para o próprio BRB
ao longo desse ano.
DELEGADO (OUTRO): Perfeito. Só para deixar claro que o senhor frisou várias vezes que
não houve, não houve, não houve operação. Uma operação houve.
DANIEL V: Desculpe, quando eu falo não houve, é porque o doutor tinha dito que a gente
tinha feito uma transação ilícita e essa operação não aconteceu.
Existiu diversas outras, não só essas dos R$12 bilhões, mas anteriores, posteriores
operações com o BRB.
DELEGADO (OUTRO): Está certo. Um outro ponto que o senhor frisou bastante e fez
questão de deixar bastante claro a sua irresignação é o fato de que o senhor disse que o
Banco Central o estava escrutinando diariamente.
Parecia quase um raete pelo que o senhor descreve aqui, como se o senhor tivesse
submetido a um regime especial de administração temporária. Mas esses créditos com
a TIRRENO, o senhor em seis meses, um pouco menos de seis meses, foram R$6 bilhões.
Em quatro meses deve ter sido algo em torno de R$4 bilhões.
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O senhor disse aqui agora que o Master vinha sofrendo com mudanças de mercado,
regulatória, um problema de liquidez. Quanto significavam no fluxo de liquidez do Banco
Master essas operações nesse primeiro quadrimestre de 2022?
DANIEL V: Na verdade, doutor, nos últimos trimestres, a originação e cessão de ativos
tinha se tornado a principal fonte de captação do banco, porque foi fechada as fontes
originais de captação, que eram as plataformas. No momento do anúncio do BRB,
inclusive, elas fecham-se por completo.
Já existia uma pressão por conta da mudança da regra que tinha acontecido anterior e
depois fecha-se completamente por questões mercadológicas. Então, o banco, nos
últimos meses, nos últimos 24 meses, o fluxo de captação e entrada de recursos era por
cessão de ativos e aportes que a gente venha fazendo pela holding.
DELEGADO (OUTRO): Mas, ainda nessa…
DANIEL V: Basicamente, era quase que a totalidade dos recursos.
DELEGADO (OUTRO): E, dessa totalidade de recursos, quanto significava a operação
cotidiana?
DANIEL V: Em termos de que? De originação?
DELEGADO (OUTRO): O senhor falou que mudou o plano de negócios do banco e passou
a ser, essencialmente, captação desse tipo de consignado. Vamos chamar assim, para
uma linguagem mais leiga. Desse conjunto de consignados, o senhor negociou em
quatro meses 4 bi, em cinco meses, e um pouquinho, 6 bi com a TIRRENO.
Além da TIRRENO, quanto o senhor negociou? Ou quanto a TIRRENO significava nessa
nova estratégia de negócio do banco?
DANIEL V: Nessa nova estratégia, basicamente, a gente tinha concentrado muito nisso.
Então, 70%, 80%, vamos dizer. Então, a gente tinha parado já naquele momento, desde
novembro do ano passado, de fazer originação de ativos de mais longo prazo.
DELEGADO (OUTRO): Posso dizer que a TIRRENO, então, era, certamente, o ponto de
maior preocupação do Master naquele momento, porque se ela estava com 70% da nova
estratégia…
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DANIEL V: Na verdade, a gente não tinha leitura TIRRENO ainda. Agora existe TIRRENO.
Na época, eram carteiras de crédito, consignados, assim como a gente tinha…
DELEGADO (OUTRO): Compradas da TIRRENO.
DANIEL V: Portfólios de crédito.
DELEGADO (OUTRO): Mas compradas da TIRRENO.
DANIEL V: Sim, sim.
DELEGADO (OUTRO): O senhor não negociava com quem estava além da TIRRENO? O
senhor tinha apenas a TIRRENO?
DANIEL V: Sim, sem dúvida. Não, estou dizendo que para efeito de portfólio do banco
era um portfólio de carteira de clientes.
DELEGADO (OUTRO): O senhor fazia negociação com a TIRRENO, às vezes, em fevereiro,
com diferença de dois dias, de R$ 300 bilhões, dois dias depois mais R$ 200 bilhões.
DANIEL V: Na verdade, foi um plano ali, não foi essa diferença de dias, foi um plano de
carteiras que existiam, que foram oferecidas, e que a gente foi executando esse plano.
DELEGADO (OUTRO): O senhor conhecia, o senhor disse aqui, o controlador da TIRRENO,
que era uma empresa nova. O senhor o conhecia do mercado.
Tinha uma pessoa que o senhor não sabia quem era, que depois veio saber que
trabalhou para o Banco Master. Como gestor do banco, numa dupla diligência de alguém
que está comprando, se transformou em 70% da sua liquidez, vamos dizer assim.
O senhor analisou, não se preocupou em algum momento com a TIRRENO e as suas
formas de trabalhar, e a facilidade com que ela gerava. O Banco Master tinha capacidade
de gerar R$ 300 milhões e, dois dias depois, mais R$ 150 milhões?
DANIEL V: Na verdade, o banco chegou a originar R$ 500 milhões, R$ 400, R$ 500
milhões por mês. Nos últimos meses tinha sido reduzido, até pela questão de liquidez, a
gente tinha reduzido um pouco o nosso tamanho.
Mas esse mercado é um mercado grande. Então, existem portfólios, em empresas, em
entidades…
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DELEGADO (OUTRO): Uma empresa recém-inaugurada, uma empresa que tinha sido
formada em dezembro, iniciou em quatro meses e consegue R$ 4 bilhões?
DANIEL V: Na verdade, estava se pautando por uma outra empresa, que era a Carter,
pela pessoa que tinha 25 anos de mercado, por diversos outros, com certeza, sub
originadores que tinham a expertise por baixo da empresa. Perfeito.
Nesse tipo de análise, a gente faz a análise da empresa e tinham vários correspondentes
bancados no banco. Você faz uma análise procedimental da empresa, mas como você
não corre o risco da empresa, o risco é a ponta, se preocupa com o portfólio de crédito.
DELEGADO (OUTRO): Perfeito. O senhor disse várias vezes que o Banco Central
descontinava diariamente. Essas operações foram lançadas no SCR?
DANIEL V: Sim, acredito que sim.
DELEGADO (OUTRO): Então, todos esses créditos consignados foram lançados no SCR?
DANIEL V: Acredito que sim.
DELEGADO (OUTRO): Se não lançados…
DANIEL V: Porque, como a gente comprou e vendeu, pode ser que a gente tenha
transferido somente pela B3. Não tenho certeza.
DELEGADO (OUTRO): Perfeito. E, como última pergunta…
DELEGADA: Porque a gente acabou de falar novamente nos créditos e tem um último
aspecto que acho interessante, é que a Cartos, que é a instituição financeira do parceiro
Henrique Peretto, quando ela responde à questão dos créditos cedidos para a Tirreno,
Banco Master, ela nega que tenha cedido.
DANIEL V: Sim, porque não foi negócio com a Cartos, foi com a Tirreno. Acho que ele
saiu ali da sociedade na hora que foi fazer o negócio.
DELEGADA: Não, é porque a Cartos nega que tenha cedido esses créditos à Tirreno, só
que o BRB, ao menos o BRB, alega que os créditos foram gerados pelos correspondentes
bancários da Cartos e, portanto, eles juntam um acordo operacional entre Cartos e
Tirreno. Então, o BRB fornece essa informação de que os créditos eram advindos da
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Cartos e a Cartos nega que tenha cedido qualquer crédito à Tirreno. Os créditos que a
Tirreno vendeu ao senhor, a Cartos, que seria a originadora da originadora, porque a
Tirreno era uma empresa de prateleira…
DANIEL V: Nesse caso específico, acho que já tínhamos tido negócio com a Cartos.
Nesse caso específico, não tivemos realmente nenhum negócio com a Cartos, com a
Tirreno. O que a Tirreno fazia por trás, quais eram os negócios, naquele momento inicial
não tínhamos…
DELEGADA: É só por isso. Como o senhor se sente sabendo que a Tirreno, que em tese
é do mesmo dono, são os mesmos donos, Peretto, dono da Cartos, e Perretto, dono da
Tirreno.
A Tirreno, criada em dezembro e iniciando já as operações com o Banco Master,
operações muito volumosas já em janeiro, em tese com créditos da Cartos. Porém, a
Cartos também não se reconhece como originadora dos créditos. Ele diz que esses
créditos que o senhor emitiu a CCBs, eles foram destinados a dois fundos.
Então, os créditos que o senhor emitiu são duplicados no mercado. O senhor emitiu a
CCBs e eles pertencem a dois fundos de investimento. Como o senhor enxerga esse tipo
de falha no compliance do seu banco?
DANIEL V: Olha, no momento que a carteira é passada pela Tirreno para o fluxo
operacional do Master, é feito um procedimento, é feita uma checagem para ver se
aquela operação tem limite, se tem o limite certo.
Tem a checagem de compliance do cliente, tem a análise de crédito do cliente. Então, na
verdade, no momento inicial, uma vez que está cadastrado ali a Tirreno como originador,
não importa quem ela utilizou, quem fez na ponta. O que importa é, como eu disse no
começo, o crédito final, o cliente final.
E esse crédito foi analisado não só pelo Master, mas depois pelo BRB. E, nessa análise
inicial, era um crédito que preenchia os requisitos. Obviamente, faltavam
documentações, que por isso a gente deixou no contrato que deveria ter um
procedimento de enviar aquelas documentações dentro daquele prazo.
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Mas, na primeira análise, na análise procedimental inicial, não existia problema naquele
crédito. Tanto que a gente passou na nossa análise, depois foi para o BRB e passou no
do BRB.
DELEGADO (OUTRO): Voltando a esse tema, o senhor iniciou em 2025 mudando
estratégia e focando e tendo a Tirreno como sua principal parceira.
O senhor acabou de dizer que 70% da liquidez vinha das operações com a Tirreno. Nesse
contexto, essa preocupação com a documentação não era para ter sido um pouco mais
forte, digamos assim. O senhor estava colocando, para usar uma expressão do mercado,
quase que todos os ovos na mesma cesta, arriscando.
O senhor diz aqui que o risco era dele, que o senhor não chegou a pagar, que ficou preso.
Mas, de qualquer forma, o senhor estava ali com a liquidez do banco concentrada em
um parceiro novo. Um dos sócios tinha 25 anos de mercado, mas a entidade em si era
nova.
O senhor acabou de nos dizer que a equipe do senhor analisou e entendeu que havia
coerência na aprovação dos créditos ao tomador final. E, ainda assim, isso perdurou
quatro, cinco, seis meses sem que a documentação chegasse em um volume de R$ 4
bilhões, R$ 6 bilhões. Como é que é isso?
DANIEL V: Na verdade, não é que não chegou a documentação. Foi chegando em partes
ao longo do tempo. Para ser sincero, quando a gente fez o negócio, eu, pessoalmente,
não dominava detalhes de operação de crédito consignado. Depois vinha a entender
quando teve o problema.
Mas acredito que a gente agiu com muito zelo. Primeiro, quando a gente executou o
contrato, a gente não liberou nenhum e não classificou como venda ou como uma
compra e venda normal, até a gente ter a convicção de que tinha 100% da
documentação. Então, nos precavemos documentalmente, nos precavemos
financeiramente, porque a gente não liberou os recursos.
Então, ali, naquele momento, quando a gente olha especificamente esse tema, a gente
estava muito envolvido também na transação do BRB de aquisição, em auditorias etc.,
no momento em que o tema é levantado e que a gente entende que realmente não
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tinham chegado todos os documentos, que eles foram chegando parcialmente. Estavam
chegando parcialmente. E, como eu disse no começo, não existia um problema naquele
momento.
Não existia uma comunicação formal do Banco Central. Olha, existe esse problema aqui.
DELEGADO (OUTRO): Mas era do Banco Central a obrigação ou era do Banco a
diligência?
DANIEL V: Era do Banco, mas a gente estava fazendo. Então, naquele fluxo normal de um
negócio ali de fevereiro, março, abril, no momento em que a gente identifica e nos
conversa com o BRB, a gente determina, a gente determina ali em maio executar e a
gente parte para uma execução de cancelar a transação. Então, acredito que, dentro do
cenário que existia naquela ocasião da instituição, a gente agiu com rapidez e com zelo.
DELEGADO (OUTRO): Mudando de assunto, uma última pergunta e retomando uma
pergunta que a doutora Janaína fez.
O senhor teve acesso a documentos sigilosos do Ministério Público Federal,
especificamente a dois procedimentos de investigação em relação a esse caso?
DANIEL V: Não. Não tive.
DELEGADO (OUTRO): Satisfação.
DELEGADA: Agradeço, senhor Vorcaro, por estar aqui hoje. Agradeço aos doutores por
estarem aqui. O senhor tem alguma…
DANIEL V: Eu queria só fazer uma fala final.
Só antes, vou fazer pouquíssimos…
DELEGADA: Então, doutora Ademec, eu não fiz exatamente iguais às que vieram, mas
acredito que todos os temas foram esgotados aqui. Peço até desculpas. Confesso que o
senhor me entregou aqui ontem e hoje as perguntas que o ministro gostaria que fossem
realizadas.
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Eu segui aqui o script praticamente… Se ele quiser que eu leia desde o início, a gente vai
refazer. O senhor quer que refaça? Só para deixar consignado que as próximas perguntas
todas vêm do ministro de gestão. Eu até já baguncei aqui o papel.
Peço que o senhor esclareça de forma objetiva qual era a sua posição formal e sua
atuação prática na estrutura decisória do Banco Master entre 2023 e novembro de 2025,
especificando quais decisões estratégicas dependiam de sua anuência direta, se
operações relevantes de aquisição e cessão de carteiras de crédito exigiam seu
conhecimento ou aprovação e se havia alguma instância interna capaz de aprovar
operações dessa magnitude sem a sua ciência.
DANIEL V: Era desde 2023, acho que a pergunta, até novembro de 2025, eu era o
presidente. Então, todas as decisões estratégicas de novos negócios e transações
relevantes da instituição dependiam da minha aprovação.
Nesse caso específico, sim, era pela relevância das transações. A negociação macro,
obviamente, como eu disse, eu não entrava nas questões operacionais e detalhes de
operação, mas a questão macro de negociação, de portfólios, tanto de compra quanto
de venda, sim, tinha participação minha.
DELEGADA: Quando o Banco Master recebeu a primeira comunicação do Banco Central
sobre problemas de liquidez, solvência ou irregularidades operacionais? Peço que
indique a data, o número do documento e o teor da comunicação.
DANIEL V: Eu não vou ter isso agora aqui de cabeça, mas a gente, como eu disse, a gente
vinha nos últimos meses passando por essa questão de liquidez. Se eu não me engano,
em novembro de 2024, o Banco Central faz uma comunicação sobre isso e ali a gente já
monta esse plano de ação que primeiramente o BRB vinha para solucionar e
posteriormente esses negócios que a gente tinha anunciado no dia 17 que ia solucionar
esse problema de liquidez que volto a dizer e afirmar, nunca foi um problema de
solvência do banco, foi um problema de pressão de captação de recursos, do fluxo
original que a gente usava as plataformas de captação, que foi alterado pelas mudanças
de regulação e pela pressão reputacional que aconteceu. Então, o banco nunca deixou
de honrar nenhum pagamento e nunca deixou de ser solvente.
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O que existia realmente, a gente estava trabalhando em um nível de liquidez inferior aos
índices normais.
DELEGADA:Quando o Banco Master ou o senhor pessoalmente receberam, entre 2018
e 2025, alguma das seguintes inserções do Banco Central, administração pública, multa
proibição de prestar serviços, proibição de realizar atividades, inabilitação para atuar
como administrador ou termo de compromisso?
DANIEL V: Não, nunca tive, até dia 17 de novembro de 2025, nenhum processo
funcionado do Banco Central comigo.
DELEGADA: O Banco Master mantinha no período estrutura formais e segregadas de
gestão de riscos, compliance jurídico? Em caso afirmativo, peço que o senhor indique.
Quem chefiava cada área?
DANIEL V: Quais são as áreas?
DELEGADA: Gestão de riscos, compliance e jurídico.
DANIEL V: Jurídico e compliance estavam debaixo da diretoria do Luiz Bull e gestão de
riscos, se não me engano, estava debaixo da diretoria do Ângelo Silva.
DELEGADA: Qual era o fluxo formal de aprovação para operações relevantes envolvendo
terceiros? E se havia comitês formais com atas e deliberações registradas?
DANIEL V: Com certeza, existe um tramite procedimental dentro do banco para todo tipo
de transação, como falei no começo.
DELEGADA: Era procedimento obrigatório que operações de aquisição de carteiras de
crédito originadas por terceiros passassem previamente por análise das áreas de risco,
compliance e jurídico? Em caso afirmativo, quais eram os critérios mínimos exigidos para
aprovação dessas operações?
DANIEL V: Sim, para cada área a gente tinha um manual, o banco tem um manual de
gestão de crédito, de compliance e sempre seguia o curso normal.
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DELEGADA: O Banco Central instaurou algum processo administrativo sancionador
contra o Banco Master ou contra o senhor pessoalmente em razão das operações com a
DPI, TIRRENO ou CARTOS?
DANIEL V: Não.
DELEGADA: Até o momento, não é?
DANIEL V: Até o dia 17.
DELEGADA: Porque a instauração de procedimento sancionador pode ocorrer antes ou
depois da comunicação. Então, se a comunicação foi feita, eles podem ainda estar em
tempo de instaurar o processo sancionador.
DANIEL V: Não é usual.
Sim, existe essa possibilidade. Só para a gente deixar isso registrado, porque eu vejo que
esse é um ponto que a defesa traz sempre. Mas essa questão de não existir ainda, não
significa que não vá ter.
DANIEL V: Mas no mínimo, com certeza, após feito, eles devem fazer. Mas o que não é
usual é antes. Não existiu uma investigação, perguntas… DPI.
DELEGADA: Até o momento, né?
DANIEL V.: Até o dia 17.
DELEGADA: Porque a instauração de processos, procedimentos sancionadores ela pode
ocorrer antes ou depois da comunicação. Então, se a comunicação foi feita, eles podem
ainda estar em tempo de instaurar o processo sancionador.
DANIEL V.: Não é usual, né?
DELEGADA: Mas, assim, existe essa possibilidade. Só para a gente deixar isso registrado,
porque eu vejo que esse é um ponto que a defesa traz sempre. Mas essa questão de não
existir ainda, não significa que não vá ter.
DANIEL V.: Mas, no mínimo, não. Com certeza, após feito, eles devem fazer. Mas o que
não é usual é antes. Não existiu uma investigação, perguntas…
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DELEGADA: DPI, quanto às carteiras da DPI. De fato, eu esqueci de fazer essas perguntas
aqui.
Foi o Banco Central quem detectou, por iniciativa própria, a falsidade das carteiras de
crédito originadas pela DPI e pela Terreno? Ou o Banco Central só tomou conhecimento
após comunicação de terceiros? BRB, Ministério Público, Polícia Federal?
DANIEL V.: Eu vi essa DPI aí nos autos depois. Eu não tenho a menor ideia nem de quem
seja. Eu sei que foi um procedimento normal ali de recompra de carteira à época.
Não tenho ciência se foi num pedido do próprio Banco Central ou se foi porque se
identificou ali dentro do banco que não era uma carteira que estava com todo o
procedimento documental correto.
DELEGADA: Se o Banco Central detectou as irregularidades por conta própria,em que
data isso ocorreu? Se foi informado por terceiros, quem informou e quando?
DANIEL V.: Das carteiras…?
DELEGADA: Da DPI.
DANIEL V.: DPI? Não tenho ciência. Eu sei que foi feito esse negócio e foi rapidamente
desfeito no início do ano. Não tenho conhecimento como foi a época.
DELEGADA: Entre a detectação das irregularidades e a liquidação extrajudicial do Banco
Master, dia 18 de novembro de 2025, quanto tempo decorreu?
O senhor considera que o Banco Central agiu com a celeridade necessária?
DANIEL V.: Não acredito que agiu. Acredito que a ação do Banco Central ao final, no dia
17, prejudicou não só a mim, mas principalmente o mercado financeiro, o sistema
financeiro, e uma vez que havia uma solução de mercado para o banco, que até ali, como
eu disse, era solvente, e a partir dali seria ainda mais sólido com a entrada dos
investidores, ou seja, no modelo usual deveria ter sido analisado, deveria sim,
obviamente, investigar essa questão das carteiras, mas não propiciar e executar não
somente uma operação e uma liquidação do banco gerando esse prejuízo que poderia
ter sido evitado.
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DELEGADA: Segundo os documentos do Banco Central, após a recompra da carteira de
DPI pelo Master, em 12 de fevereiro de 2025, não foram realizados novos exames pelo
BC. Por que o Banco Central interrompeu a fiscalização justamente quando descobriu
que as carteiras eram falsas?
DANIEL V.: Eu entendo que essa questão, pelo menos o Banco Central nunca me
informou que as carteiras eram falsas, eu entendo que a gente desfez a operação, ou
seja, não concluiu a operação e o Banco Central tinha dado o tema por encerrado. Aliás,
isso foi conversado dentro do próprio trâmite de negociação da fusão com o BRB.
DELEGADA: Pode explicar também qual a natureza dessa carteira da DPI?
DANIEL V.: Você estava dizendo da DPI?
DELEGADA: Sim.
DANIEL V.: Eu não tenho informação, era um volume pequeno, esse tema chegou para
mim na época que existia uma carteira que estava com nível de reclamação acima do
usual e a gente rapidamente, sempre com boa fé, mandou a gente recomprar e desfazer
a operação.
Mas não foi um negócio que eu me aprofundei, eu não sei nem de quem é essa empresa.
DELEGADA: O Banco Central emitiu algum alerta ao BRB sobre a situação do Banco
Master antes que o BRB continuasse adquirindo carteira de crédito, se eu tenho
conhecimento, em 2025?
DANIEL V.: Não.
DELEGADA: Caso negativo, o senhor entende que o BC falhou em seu dever de
supervisão prudencial?
DANIEL V.: Não. Na verdade, eu acredito que a área de fiscalização presidida pelo senhor
Ailton até o momento do dia 17 atuou com a diligência normal, porque eram debatidos
diariamente os pontos com relação tanto ao Banco Master, quanto à negociação do BRB,
quanto às carteiras.
Esse tema das carteiras, inclusive, como eu disse antes, acho que passou desapercebido,
ele estava dado como encerrado porque a gente tinha substituído, a gente estava
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tratando já de outros temas, que era a tentativa da conclusão da aquisição societária,
que acabou não se concluindo e a partir daí a gente foi migrando para outros
assuntos que era trazer os investidores estrangeiros.
Então, o Banco Central, naquele momento, até aquele momento, no meu entendimento,
estava trabalhando, e aí eu acho que talvez não o Banco Central como um todo,
trabalhava para uma solução.
Eu acho que o grande problema que aconteceu nessa história, doutora, infelizmente, é
que dentro do Banco Central, existiam pessoas que queriam uma solução de mercado, e
existiam outras pessoas, departamentos, que queriam que acontecesse o que aconteceu
e acabaram vencendo.
Acho que essa é a grande questão. Então, talvez o Banco Central como um todo, na
minha opinião, não falhou, mas eu acho que algumas áreas e algumas pessoas falharam
muito, não só comigo, mas com o sistema financeiro.
DELEGADA: Azafina(inaudível), considerando especificamente a empresa DPI, soluções
e pagamentos, limitada, peço que o senhor esclareça em que data o Banco
Master iniciou relações comerciais com essa empresa?
Qual foi a primeira operação realizada?
Quem aprovou o início dessa relação comercial?
DANIEL V.: Pelo volume dessa carteira, eu não tinha conhecimento, não participei dessa
transação. Acredito que tenha sido uma negociação essa e que foi rapidamente desfeita.
Quando se identificou o problema, o próprio Banco Central atestou isso. Esse assunto já
tinha sido… Aliás, isso que eu estou dizendo, a tratativa do Banco Central com relação à
DPI, a tratativa do Banco Central com relação à DPI, é exatamente o que eles colocaram
nos autos do processo, quando o Ministério Público questiona, olha, se a DPI não foi
executada, já foi substituída, acabou, não existe prejuízo para ninguém.
É a tratativa que a gente imaginava que tinha sido dada no caso da TIRRENO também.
Então, foram dois pesos, duas medidas.
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No caso da DPI, o Banco Central fala, “Olha, Ministério Público, não tem mais nada sobre
isso, a transação não ocorreu, foi desfeita”.
No caso da TIRRENO, o nosso entendimento deveria ter sido, estava sendo executado
com o mesmo raciocínio e que eu fiquei sabendo no dia 17 à noite que não.
DELEGADA: As aquisições de carteiras atribuídas à DPI passaram formalmente pelas
áreas de risco, compliance e jurídico do Banco Master?
Caso a resposta seja afirmativa, peço que indique quem elaborou os pareceres,
relatórios ou notas técnicas e que sejam juntadas respectivas cópias.
Caso a resposta seja negativa, peço que esclareça por qual razão a operação dessa
magnitude dispensou essas análises.
DANIEL V.: Com certeza, passou no trâmite normal, eu não tenho disponibilidade dessas
análises, desses relatórios, aliás, mais de nada do Banco desde o dia 17, não tenho
acesso a nada. Então, não consigo contribuir com isso.
DELEGADA: Peço que o senhor identifique quem, do Banco Master, conduziu a
interlocução operacional e negocial com a DPI, especificando.
DANIEL V.: Isso, com certeza, estava dentro da área de consignado. Na área de varejo,
que…
DELEGADA: O responsável interno, o senhor sabe, que se houve reuniões presenciais,
chamadas de vídeo, telefonemas ou trocas de mensagens, as datas aproximadas desses
contatos e com quem, do lado da DPI, essas tratativas foram realizadas
DANIEL V.: Eu não consigo contribuir com essa pergunta porque eu não conheço, não sei
da DPI, essa transação especificamente não participei e seguiu o fluxo normal, assim
como diversas outras acreditem, mas o negócio do consignado se tornou tão relevante
dentro do Banco e com tantas pessoas que boa parte dos, aliás, grande parte dos
representantes, dos agentes de cobrança, de…chamam-se os “Pastinhas” que fazem a
venda, eu não conhecia quase nenhum.
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Anteriormente, era tocado pelo meu ex-sócio Augusto e por toda uma equipe que foi
criada ali embaixo do Banco e eu, na verdade, não tinha acesso. Então, eu não conheço,
não posso contribuir por isso, com essa empresa, por conta disso.
DELEGADA: O senhor tinha conhecimento, à época, do perfil econômico e funcional da
representação formal da DPI, inclusive do fato de se tratar de pessoas em estrutura
empresarial, sem capacidade financeira compatível e sem histórico no mercado de
crédito?
Caso tivesse esse conhecimento, peço que esclareça quem decidiu que essa
circunstância não impediria a contratação.
Caso não tivesse conhecimento, peço que esclareça como é compatível (com os seus
deveres de diligência da controladoria do Banco.
DANIEL V.: Olha, o Banco tem manuais, como eu disse, seja para cadastro de
representantes, para vendedores etc., para cada tipo de parceria existe uma régua e uma
regra. Um caso como esse, que era um originador, existe uma questão de compliance e
um manual que, obviamente, deveria ou deve ter sido seguido, mas, de novo, esses
representantes são vendedores, na verdade, o Banco não corre o risco deles.
Claro, é feita uma checagem, é feita uma análise para ver se a pessoa que não tem
antecedentes, essas questões de parceria, mas o Banco não corre o risco do originador.
Muitas vezes são empresas pequenas, mas que têm uma capacidade de venda boa.
DELEGADA: Quando surgiram indícios de que…. Ah, não, 18, desculpa.
Peço que o senhor informe quais foram os valores efetivamente pagos pelo Banco
Master a DPI e pelas carteiras de crédito que lhe foram atribuídas, discriminando datas,
valores, forma de pagamento e contas utilizadas, com a juntada de documentos
comprobatórios?
DANIEL V.: De novo, eu não sei especificamente sobre esse caso, mas como ela foi
desfeita, eu acredito que, ao final, não existiu um pagamento definitivo à
empresa, porque a operação foi desfeita logo no início, pelo que eu entendi.
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DELEGADA: Quando surgiram indícios de que os créditos atribuídos a DPI não possuíam
existência material, inclusive reclamações de titulares que alegavam desconhecer as
operações. Peço que o senhor esclareça em que data tomou ciência desses fatos e quais
as providências determinou imediatamente.
DANIEL V.: Isso que aconteceu com o a DPI como eu disse, não era fora do usual. No
banco crescendo, quando a gente começou a trazer novos originadores, novos parceiros,
diversas vezes entrava um e sempre tinha um monitoramento do nível de
reclamações de cada carteira ou de cada parceiro. Se eu não me engano, essa transação
aconteceu em dezembro, foi me trazido em janeiro já, que existia um nível de
reclamação maior que o usual, e acho que naquele mesmo momento, janeiro, início de
fevereiro, já foi desfeita a operação e devolvida a carteira.
Ou seja, a gente agiu com rapidez nesse caso.
DELEGADA: Constatação de que os créditos atribuídos a DPI eram falsos ou inexistentes,
o Banco Master exigiu a devolução dos valores pagos a DPI?
DANIEL V.: Eu acredito que assim como no caso da Tirreno, no caso da DPI, também não
havia sido liberado ainda recursos para a empresa, que quando a gente desfez, eu não
tenho conhecimento específico, não me recordo como foi feito à época, mas o Banco
Master não teve qualquer prejuízo com esse tema da DPI e nem ninguém.
DELEGADA: Caso a resposta seja afirmativa, indique quando, ou seja, não, então na
verdade o senhor não pagou, mas foi semelhante o que aconteceu com a Tirreno, não
houve pagamento do tipo.
Após a identificação das irregularidades envolvendo a DPI, o Banco Master comunicou
formalmente os fatos ao Banco Central do Brasil, a CVM ou as autoridades policiais, caso
a resposta seja afirmativa, indique datas destes notários e documentos enviados.
Caso a resposta seja negativa, esclareça por que tais comunicações não foram realizadas.
DANIEL V. : Informalmente acredito que não, e aí de novo, pode ser que sim, dentro das
áreas de compliance tenha sido comunicado, porque tem um procedimento lá usual do
banco que diversas vezes havia comunicações a COAF e a outros órgãos que eu não tinha
ciência, a área de compliance tinha autonomia para poder fazer isso, então se foi
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realizada eu não tenho ciência, da minha parte não foi feito nenhum comunicado formal,
existiu um comunicado informal ao Banco Central nas conversas que a gente tinha diária
com a fiscalização, que a gente tinha desfeito um volume maior, e como eu disse, isso já
era usual, em várias regiões ou carteiras originadoras, diversas vezes aparecia algum foco
ali, o banco já foi alvo de quadrilhas, de falsificação de crédito, inclusive existiu um
inquérito sobre isso, que a gente comunicou formalmente, no Sul e em outras regiões,
que a gente teve que atuar, e a gente tinha esse monitoramento para checar o nível de
reclamações.
Então nesse caso, como foi um caso que superou a normalidade, houve o comunicado
do desfazimento por mim, na época, foi comunicado por mim de maneira informal, mas
não oficialmente.
(Momento de queda de energia)
DELEGADA: Continua a gravação mesmo assim?
Pode continuar então, não é?
Voltou, é rápida, não demora muito.
Continuando aqui, agora o bloco dois, Carto e Tirreno, algumas perguntas são
repetidas, mas como o ministro determinou, fiz esses ipsis litteris aqui, foi determinado.
O senhor conhece Henrique Sousa Silva Peretto, fundador e CEO da Carto Sociedade de
Crédito Direto, S.A.?
DANIEL V.: Sim.
(Momento em que é ajustado o microfone da DELEGADA) DELEGADA: Pronto, está
bom?
DANIEL V.: Sim.
DELEGADA: Há uma relação pessoal do senhor com ele? Ele frequenta a sua casa?
DANIEL V.: Não.
DELEGADA: Em caso afirmativo, peço que o senhor esclareça, em que data conheceu
Henrique Peretto?
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DANIEL V.: Eu não me recordo, conheci ele há alguns anos, através do meu ex-sócio
Augusto, mas tive pouquíssimas vezes com ele, tive mais recentemente nesse momento
de desfazimento dessa operação.
DELEGADA: Quem o apresentou então foi o seu só ex-sócio Augusto Lima?
DANIEL V.: Eu não sei, agora eu não me recordo, se ele nos foi apresentado em conjunto
na época,ou a ele primeiramente, mas eu conheci ele há alguns anos,mas nunca tive
nenhuma relação nem pessoal e comercial também, encontrei poucas vezes.
DELEGADA: Quem fez essa aproximação para terreno foi o Augusto Lima, seu só ex-sócio
Augusto Lima?
DANIEL V.: Essa agora recente?
DELEGADA: Tirreno, da Tirreno.
DANIEL V.: Eu não me recordo se foi especificamente o Augusto, ele que tocava essa área
de consignado, mas ele já estava num projeto de saída nesse momento, já no início do
ano, que culminou na saída dele definitiva, e hoje está com outra instituição financeira.
Mas ali já existia uma relação com o Henrique, com a minha área de consignado, e existia
uma estrutura que foi formada lá atrás pelo Augusto, não me lembro se foi
especificamente ele que trouxe ele novamente.
DELEGADA: Quantas vezes o senhor se encontrou pessoalmente com o Henrique
Peretto? Entre janeiro de 2024 e novembro de 2025.
Peço que indique datas aproximadas, locais e assuntos tratados.
DANIEL V.: Em 2024, acredito que nenhuma vez, talvez uma vez no final do ano, talvez
nenhuma vez. Em 2025, umas seis vezes para discutir, seis ou sete vezes para discutir o
tema do desfazimento das carteiras.
DELEGADA: Quantas vezes o senhor conversou com Henrique Peretto por telefone,
videoconferência ou aplicativo de mensagens entre janeiro de 2024 e novembro de
2025?
Peço que indique a frequência aproximada e os assuntos tratados.
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DANIEL V.: Poucas vezes, como eu disse, não tinha uma relação pessoal, mais
intensificada nos primeiros meses de janeiro, para tratar algum tema específico que não
tinha sido passado por alguma instância operacional e precisava ser tratado diretamente
por ele.
DELEGADA: Especificamente no período de outubro a dezembro de 2024, época em que
a empresa Tirreno foi criada e iniciou operações com o Banco Master, quantas vezes o
senhor se comunicou com Henrique Peretto por qualquer meio?
DANIEL V.: Em outubro?
DELEGADA: Isso, de outubro a dezembro.
DANIEL V.: De 24?
DELEGADA: 24.
DANIEL V.: Acredito que nenhuma vez. Acredito que nenhuma vez, porque foi uma coisa
operacional ali da própria área.
Eu vinha comunicar mais quando houve o problema, que aí eu entrei .Como eu disse,
esse negócio do consignado andava sozinho, não dependia da minha atuação eu só
entrava para fazer grandes negociações, seja de aquisição, seja de venda. Então, eu não
tinha um contato com a área.
DELEGADA: É porque o senhor já disse hoje que foi ele que apresentou o negócio ao
senhor. Eu acho que é mais ou menos isso que o ministro estava…
DANIEL V.: Sim, mas esse negócio foi trazido na área de consignado para mim, no final
do ano, início desse ano, mas não foi o Henrique Peretto que chegou a tomar esse
negócio. A gente foi atrás de carteiras de crédito, a gente tinha pedido para a área de
consignado, e atrás de parceiros que pudessem ter volume para a gente poder ir para
esse novo caminho que a gente tinha com o BRB.
DELEGADA: Entendi. Antes de adquirir 6.7 bi em carteiras de crédito da Tirreno, o Banco
Master verificou a capacidade econômica e financeira dessa empresa? Em caso
afirmativo, quem realizou essa verificação? Em que data e qual foi a conclusão?
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DANIEL V.: Nesse tipo de negócio, como não se corre o risco, como eu disse, da empresa
originadora, se faz uma análise basicamente de compliance da empresa, não análise
econômica, porque a empresa pode ser recém-criada, pequena etc.
O banco não está dando crédito para ela, está dando crédito na ponta final, que é o
cliente adquirido.
DELEGADA: A Tirreno alegava ter capital social de 30 milhões. O Banco Master verificou
se essa capitalização era real?
DANIEL V.: Acredito que não.
DELEGADA: Isto é, se houve efetivo aporte de recursos ou bens, caso afirmativo, como
essa verificação foi feita e quais documentos foram analisados?
DANIEL V.: Na prática, o banco não tinha ingerência ou se preocupava com isso.
Foi feita uma análise de compliance, como eu disse, e no entendimento informal, ali para
mim, o que se chegou era, olha, tem uma empresa que sempre trabalhou com a gente,
que é a Cartos, saiu um dos sócios, tem muita experiência, está criando uma
empresa que vai focar especificamente na originação desse crédito.
Está criando empresa justamente para isso, para focar na originação e nesse novo
negócio, nova possibilidade que seria para ele também de originar crédito para o BRB na
conta final.
DELEGADA: O Banco Central afirma que não foram identificadas quaisquer
movimentações financeiras da Tirreno.
Isso significa que a Tirreno nunca recebeu um único centavo em sua conta, nem supostos
30 milhões de capitalização, nem pagamentos por carteiras.
Como o Banco Master aceitou comprar 6,7 bilhões em crédito de uma empresa que não
tinha qualquer movimentação financeira comprovada?
DANIEL V.: De novo, o risco do banco nunca foi a Tirreno.
Então a gente sabia que era uma empresa recém-criada, mas para alguém que tinha
expertise de venda e que tinha várias outras empresas que ele tinha acesso de
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vendedores, ou seja, era uma empresa intermediária, então para o banco não tinha
muito…
DELEGADA: Segundo a Junta Comercial de São Paulo, Henrique Peretto, dono da Cartos,
que originou 100% das operações, aparece como investidor da Tirreno em dezembro de
2024.
O Banco Master identificou essa conexão antes de celebrar o contrato com a Tirreno?
Sim, né? O senhor sabia?
DANIEL V.: Claro, foi mais pela pessoa do que pela empresa.
DELEGADA: Se identificou, por que contratou uma empresa cuja capitalização vinha
justamente do dono da originadora das carteiras?
Se não identificou, como é possível que uma due diligence básica não tenha revelado
esse fato público registrado na Junta Comercial?
DANIEL V.: Como eu disse, isso não era relevante para a transação das carteiras.
DELEGADA: Agora perguntas relativas à sua relação com outro investigado, que é o
senhor André Felipe de Oliveira Seixas Maia.
André Felipe de Oliveira Seixas Maia foi funcionário do Banco Master até março de 2022,
conforme registros da RAIS.
O senhor confirma?
DANIEL V.: Não posso confirmar, desculpa, porque eu não tenho certeza.
Eu não o conhecia a essa época, não tinha estado com ele ainda.
DELEGADA: O senhor não conhecia, mas eu vou seguir só para não correr o risco do
ministro mandar voltar. Tá. Então pode passar, né? Eu estou com medo só depois de ter
que voltar. Considerando que o senhor Henrique Peretto e André Felipe Maia foram
presos na mesma operação policial em 18 de novembro de 2025, o senhor sustenta que
se trata de mera coincidência essa relação do André com Henrique Peretto?
DANIEL V.: Não acredito que seja coincidência, acho que todos são ali do ramo dessa
questão de consignado, eles são, pelo que eu entendi, o André passou a trabalhar para
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o Peretto nessa empresa, já tinha saído do banco, passou a trabalhar com ele em
algumas empresas, inclusive nessa.
DELEGADA: Criação e natureza da Tirreno.
A empresa Tirreno foi constituída em 4 de onze de 2024 com o nome de SX016
Empreendimentos e Participações S.A e teve seu nome alterado para Tirreno Consultoria
Promotoria de Créditos de Participação.
O Banco Master celebrou o contrato de parceria com a Tirreno 3 dias depois, em 5 do
doze de 2024. O senhor tinha conhecimento da recente constituição da empresa?
DANIEL V.: Não conheço esse nível de detalhe, mas sim tinha sido me informado que o
Peretto havia saído da sociedade para criar uma nova empresa para poder fazer parceria
com o banco.
DELEGADA: O senhor sabia que o primeiro responsável fiscal da empresa que se tornaria
a TIRRENO, Daniel Moreira Bezerra, registrou outras 91 empresas com nomes
semelhantes, SX01, SX02, conforme identificado pelo Banco Central?
DANIEL V.: Não, não tinha conhecimento, ouvi nos autos, mas acredito que isso é uma
firma que trabalha com esse tipo de coisa, de empresas de prateleira.
DELEGADA: Quem apresentou a empresa TIRRENO ao Banco Master como potencial
parceira para a aquisição de carteiras de crédito?
DANIEL V.: Essa eu já respondi pelo conhecimento com o Peretto, não foi a TIRRENO, foi
o Henrique Peretto.
DELEGADA: Quem do Banco Master conduziu a negociação do contrato de parceria com
a TIRRENO celebrado em 5 do doze de 2024?
DANIEL V.: Aí tem um roteiro, como eu disse lá do banco, tem a área jurídica, a área de
compliance, seguiu um roteiro normal do jurídico.
DELEGADA: Por que o Banco Master celebrou o contrato de parceria com uma empresa
que tinha 3 dias de existência sob aquele nome?
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Não tinha histórico operacional, não tinha movimentação financeira e era dirigida por
um ex-funcionário do próprio banco?
DANIEL V.: Na verdade, ali o objetivo era fazer parceria com as pessoas, independente
de qual veículo que eles usassem, o veículo foi criado especificamente para parceria.
DELEGADA: Com relação, eu tenho uma pergunta, vou abrir aqui, porque foi a outra
questão que chamou a atenção na hora da análise do relatório das diligências do exame
dos documentos, que é o fato que os documentos não foram assinados digitalmente,
eles são antedatados.
Isso é uma prática comum do Banco Master?
Vocês não assinam digitalmente os documentos?
DANIEL V. :Eu não tenho conhecimento sobre isso, acho que tem os dois modelos lá, a
gente tinha assinatura física e assinatura digital, não tenho conhecimento.
DELEGADA: E aí, eles são levados para autenticação em cartório só depois das perguntas
da questão da fiscalização realizada pelo Banco Central e que seriam encaminhadas pelo
BRB, não foram encaminhadas pelo Banco Master, porque o Banco Master aponta como
originadores as associações.
DELEGADA: De fato, isso foi uma movimentação realizada a pedido do BRB, essa questão
da autenticação no cartório, houve uma movimentação nesse sentido de formalizar essa
documentação para que ela fosse apresentada pelo BRB ou isso já tinha sido feito antes?
DANIEL V.: Eu não tenho conhecimento específico, mas acho que o trâmite normal, como
muitos negócios, você faz os documentos e aí está na hora, no momento de apresentar,
você vê que tem alguma falha ali, que não foi autenticado no dia, você vai e acredito que
tenha seguido um trâmite normal ali de negócio
DELEGADA: Agora, segue um novo bloco.
Segundo o relato sucinto do Banco Central, não foram identificadas quaisquer
movimentações financeiras na TIRRENO em consulta ao sistema de pagamentos, TED,
PIX, boleto ou câmbio, nem registros de aplicações financeiras em entidades
registradoras ou em cotas de fundos.
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O senhor confirma que a TIRRENO nunca movimentou qualquer valor no sistema
financeiro?
DANIEL V.: Não tenho conhecimento disso, eu tenho conhecimento do que ela
movimentou no Banco Master, que foi a conta remunerada que foi criada para ela.
DELEGADA: Se a TIRRENO nunca movimentou dinheiro, como ela adquiriu as carteiras
de crédito que posteriormente vendeu ao Banco Master?
DANIEL V.: O que eu entendo é que a TIRRENO era uma intermediária do processo, eu
não tenho conhecimento específico de como que foi executado por ela essas questões.
DELEGADA: Ela era uma intermediária de quem?
DANIEL V.: De aquisição de carteiras, ela não era a empresa originadora, ela era ela
mesma, ela tinha outros agentes que faziam originação, a o que eu entendo.
DELEGADA: O Banco Master efetivamente pagou a TIRRENO pelas carteiras de crédito
adquiridas no valor de 6,7 bilhões?
DANIEL V.: Não, a gente não realizou a transação final, a gente fez um acordo…
DANIEL V.: Uma promessa de transação que acabou não se concretizando.
DELEGADA: Segundo documentos do Banco Central, os valores devidos à Tirreno foram
registrados em uma conta de depósito vinculada no próprio Banco Master, sem registro
de rendimentos. E o pagamento efetivo só ocorreria após a formalização documental
das operações de crédito cedidas.
A TIRRENO jamais apresentou essa documentação. O Banco Master, portanto, nunca
pagou efetivamente a Tirreno, o senhor confirma?
DANIEL V.: Confirmo. Na verdade, os recursos estavam depositados numa conta escrow
ali, que era uma conta que a gente criou, reserva remunerada.
DELEGADA: Considerando que a Cartos nega ter vendido carteiras à Tirreno, a Tirreno
nunca movimentou dinheiro, portanto nunca pagou à Cartos, o Master nunca pagou
efetivamente à Tirreno. De onde vieram as carteiras de crédito que o Banco Master
vendeu ao BRB por 12,2 bilhões?
55
DANIEL V.: Eu não tenho essa informação. Eu tenho informação, pelo que eu entendi,
pelo que eu até vi nos autos, que existiam 18 parceiros originadores. Mas o que eu tenho
de informação é que a transação não foi efetivada. Então, a gente não se preocupou em
aprofundar ainda mais nessas carteiras, uma vez que a gente desfez o negócio.
DELEGADA: Segundo a informação prestada pelo BRB ao Banco Central, todas as
operações adquiridas com a intermediação da Tirreno foram celebradas por 20
correspondentes bancários da Cartos. Se ninguém pagou a ninguém em toda a cadeia —
Cartos, Tirreno e Master — a única explicação lógica é que as carteiras foram criadas
artificialmente, isto é, são créditos falsos. O senhor concorda com essa conclusão? Caso
discorde, apresente explicação alternativa documentada pelo Bacen.
DANIEL V.: Não concordo. Volto a dizer, eu não sei dessas operações. A gente não
aprofundou as operações na ponta, quantas delas eram boas, quantas estavam com
documentação que não foi enviada. A gente não aprofundou porque a transação final
não foi realizada. Como foi dito anteriormente, foi realizada com outros ativos da
transação com o BRB, não esse. Então, eu não posso dizer que a transação ou as carteiras
eram falsas. Eu não posso afirmar. O que eu posso afirmar é que a transação não existiu.
Não existiu nem em pagamento para a Tirreno e nem na venda para o BRB.
DELEGADA: Não, mas existiu assim, no ponto em que o senhor cedeu as carteiras para o
BRB e recebeu o dinheiro.
DANIEL V.: Sim, mas eles ficaram em uma conta excluída. Ou seja, era uma transação
para ela existir. Quando eu falo existir, sob o ponto de vista transacional do sistema
bancário, eu deveria registrar a aquisição, registrar a venda na minha receita, recolher
impostos, alocar o prêmio como resultado, colocar isso no sistema de cobrança dos
clientes. Nada disso foi feito. Ela foi interrompida e desfeita antes de ser concluída.
DELEGADA: Segundo informações prestadas pelo BRB ao Banco Central, todas as
operações adquiridas com a intermediação da Tirreno foram celebradas por 20
correspondentes bancários, a Cartos Sociedade de Créditos S.A. O senhor tinha
conhecimento de que a Cartos era a originadora real das operações?
DANIEL V.: Não.
DELEGADA: A Cartos nega ter vendido carteira de crédito à Tirreno. A Tirreno nunca
movimentou o dinheiro para comprar. Então há três possibilidades lógicas:
A) as carteiras foram transferidas gratuitamente; B) as carteiras foram fabricadas do
nada; C) as carteiras foram apropriadas da Cartos sem pagamento.
Qual dessas alternativas o senhor considera verdadeira?
DANIEL V.: Nenhuma das carteiras.
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DELEGADA: O ministro pede que o senhor escolha uma. Vou ler de novo para escolher
uma. A Cartos nega ter vendido carteira de crédito à Tirreno. A Tirreno nunca
movimentou o dinheiro para comprar. Então há três possibilidades:
As carteiras foram transferidas gratuitamente;
As carteiras que o senhor transformou em títulos;
B) as carteiras foram fabricadas do nada;
C) as carteiras foram apropriadas da Cartos sem pagamento.
Não tem como entrar na transação entre Cartos e Tirreno.
DANIEL V.: Desculpa, não consigo identificar, dessas três, o que aconteceu. O que eu
consigo identificar, quando eu entendi a pergunta, era com relação ao Master. Eu consigo
identificar com relação ao Master. Entre Cartos e Tirreno não tem como entrar numa
relação, inclusive de duas empresas de mesmo sócio. Não posso opinar.
DELEGADA: Se o senhor nega qualquer relação com a Cartos e a Cartos nega ter cedido
carteiras à Tirreno, como o senhor explica que as carteiras vendidas ao BRB tinham como
originadora justamente a Cartos, instituição cujo dono, Peretto, capitalizou a Tirreno e
cujo sócio Maia, que é o André Seixas Maia, era diretor da Tirreno e ex-funcionário do
Banco Master?
DANIEL V.: Eu não consigo responder essa pergunta. Não tenho informação.
DELEGADA: 53, são 80. Só para a gente ter um… 80 e aí alguma coisa.
Considerando que a Cartos é uma instituição financeira diretamente fiscalizada pelo
Banco Central e que todas as operações intermediadas pela Tirreno foram originadas
pela Cartos, o senhor entende que o Banco Central deveria ter identificado as
irregularidades antes que 12,2 bilhões fossem vendidos ao BRB?
DANIEL V.: Acredito que não. O Banco Central tinha a dinâmica de auditoria quase que
diária, como eu disse. Mas, no momento em que faltou essa documentação, acho que
tanto o Banco Central quanto o Master agiram com rapidez e diligência.
DELEGADA: Em 2 de abril de 2025, o Banco Master notificou a Tirreno sobre o imediato
e irreversível cancelamento das operações, em razão do descumprimento de cláusula
contratual e não apresentação de documentação. O senhor confirma o envio dessa
notificação?
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DANIEL V.: Acredito que sim. Eu confirmo.
DELEGADA: Então o senhor realmente enviou essa notificação de cancelamento?
DELEGADA: O senhor soube no momento em que ela foi enviada, essa notificação?
DANIEL V.: Sim.
Após essa notificação de cancelamento imediato e irreversível, o Banco Master adquiriu
mais 2.3 bilhões em carteiras da mesma Tirreno, em abril e maio de 2025. Como o senhor
explica que um cancelamento imediato e irreversível tenha sido seguido de novas
compras no valor de 2.3 bilhões?
DELEGADA: Após essa notificação de cancelamento imediato e irreversível, o Banco
Master adquiriu mais 2,3 bilhões em carteiras da mesma Tirreno, em abril e maio de

  1. Como o senhor explica que um cancelamento imediato e irreversível tenha sido
    seguido de novas compras no valor de 2,3 bilhões?
    DANIEL V.: Como eu disse, naquele momento existia uma questão negocial para além
    dos documentos de notificação. A gente notificou, pressionou a Tirreno para receber os
    documentos, até porque a gente estava pressionado do outro lado. Mas ainda não
    tínhamos a dimensão do problema, porque tinham chegado, inclusive após isso, se eu
    não me engano, uma leva de documentos. Pode ter sido dito que, para essas novas
    carteiras, teria o kit completo. Ou seja, ainda não era um problema.
    Era uma primeira notificação, uma tentativa de resolver o problema, porque não era
    interesse, no primeiro momento, nem do Master nem do próprio BRB, o desfazimento
    naquela altura. Veio acontecer depois de um mês, mais ou menos, em maio, e após o
    desfazimento efetivo a gente não fez mais aquisições.
    Central?
    DANIEL V.: De forma alguma.
    Ali a gente estava pressionando para ter a documentação, que era tão importante para
    a gente. Existia o interesse inicial de que se completasse a documentação e que
    permanecesse com a carteira, o que, após 30 ou 40 dias, acabou não acontecendo. Aí a
    gente partiu para a dissolução mesmo.
    DELEGADA: Quando o Banco Master iniciou as cessões de carteiras de crédito ao BRB?
    DANIEL V.: Em 2024. Não me lembro exatamente quando. Acho que em junho ou julho.
    58
    DELEGADA: O Banco Master cedeu ao BRB carteiras de crédito originadas pela Tirreno
    no valor total de R$ 12,2 bilhões, incluindo o prêmio de R$ 5,5 bilhões. Quem negociou
    essas operações pelo lado do Banco Master?
    DANIEL V.: Essas transações de venda maiores de portfólio, eu participava da parte
    macro, de definição de taxa, etc. E o operacional era executado pelas equipes.
    DELEGADA: O senhor participou pessoalmente das tratativas com o BRB para a cessão
    dessas carteiras?
    DANIEL V.: Sim, participei.
    DELEGADA: Quem participou dessas reuniões?
    DANIEL V.: Na verdade, a negociação macro era feita entre eu e o Paulo Henrique.
    Depois, tinha toda uma equipe operacional que discutia detalhes. Ao final, para ser
    sincero, já era uma coisa operacional. Depois das primeiras, já estava operacional de
    parte toda.
    DELEGADA: Quem fazia parte dessas equipes operacionais?
    DANIEL V.: Acho que ambas as diretorias dos bancos.
    DELEGADA: Pelo Banco Master?
    DANIEL V.: Pelo Banco Master, o Ângelo, os diretores ali do banco, o pessoal da
    tesouraria, o fluxo normal de pessoas.
    DELEGADA: Os nomes, por favor. O tesoureiro é o Alberto Félix, o Ângelo e o Luiz Bull. O
    Luiz Bull também.
    DANIEL V.: O Luiz Bull, na parte operacional.
    DELEGADA: Segundo a decisão de prisão, as operações adquiridas da Tirreno foram
    cedidas ao BRB pelo Banco Master antes mesmo que os documentos necessários para a
    formalização de tais operações fossem entregues ao Master pela Tirreno.
    DANIEL V.: Correto.
    DELEGADA: O senhor confirma que o Banco Master vendeu ao BRB créditos cuja
    documentação sequer possuía?
    59
    DANIEL V.: Não. Na verdade, a gente fez uma cessão, como várias outras que a gente
    tinha feito, que ainda carecia da documentação completa. Mas a gente tinha
    responsabilidade por qualquer vício formal pela ausência de documento, que,
    obviamente, quando aconteceu, a gente acabou desfazendo.
    DELEGADA: Mas quando o senhor cedeu, o senhor não tinha os documentos, tanto que
    o senhor faz a notificação pela ausência de documentos, não é isso? O senhor começa a
    ceder em janeiro.
    DANIEL V.: Para ser sincero, quando a gente fez o negócio, ainda não tinha essa ciência
    da ausência da documentação. Eu fiquei sabendo posteriormente que não tinham vindo
    todas as documentações e, a partir daí, a gente começa a ir atrás. Porque também não
    foi uma ausência completa: existiu uma documentação base e tinham coisas que
    estavam faltando. Eu fico sabendo disso e, nesse momento, começo a atuar para que se
    completem as informações.
    DELEGADA: Mas o senhor cedeu antes de receber a documentação completa?
    DANIEL V.: Correto, sim. Fazia parte do negócio.
    DELEGADA: Como o Banco Master podia atestar a existência e a qualidade de créditos
    cuja documentação não tinha em mãos?
    DANIEL V.: A documentação básica é o que eu entendo existir. Tanto que, não só na
    equipe do próprio Master, como na equipe do BRB, foi feita análise de crédito, de
    compliance, e seguiram os manuais.
    DELEGADA: A cessão foi realizada sem coobrigação, ou seja, o BRB assumiu
    integralmente o risco de inadimplência. Por que o Banco Master exigiu essa condição se
    os créditos eram supostamente sólidos?
    DANIEL V.: Na verdade, o usual, quando você faz a cessão, é que o risco de inadimplência
    passe a ser do comprador. Mas existe o risco de vício documental da existência do que é
    previsto no contrato, e foi por esse motivo que a gente desfez a operação.
    DELEGADA: Segundo o Banco Central, o Banco Master não reservou recursos líquidos
    suficientes para honrar as obrigações cotidianas. O que ocorreria caso recebesse a
    60
    documentação completa das operações? Isso significa que o Banco Master sabia que
    nunca receberia a documentação e, portanto, que os créditos não existiam?
    DANIEL V.: É uma alegação do Banco Central, no mínimo, curiosa. Porque, como eu disse
    no início, na prática bancária você tem uma reserva, você tem a conta de clientes, e o
    banco não tem a disponibilidade de todas as contas de clientes que tem ali à disposição.
    E, obviamente, como eu disse, até o dia 17 de novembro a gente tinha conseguido
    honrar com todos os nossos compromissos. Então, sem dúvida nenhuma, a gente
    honraria esse também, caso a operação fosse concluída.
    DELEGADA: Como o Banco Master registrou contabilmente o prêmio de 5,5 bilhões
    recebido? Cinco bilhões e meio, como foi registrado?
    DANIEL V.: Não foi registrado. Ele ficou numa conta transitória também, esperando a
    conclusão da transação.
    DELEGADA: Segundo o Banco Central — ah, tá, é porque a conta é um dos pontos do
    relatório, eu vou ler só para não… Segundo o Banco Central, o Master optou por uma
    terceira opção, não prevista nas normas contábeis, que foi a retificação, redução de um
    ativo, rubrica cujos valores em nada se relacionam com as operações realizadas. O
    senhor pode explicar melhor?
    DANIEL V.: Ao meu entender, foi feito seguindo, sim, o procedimento contábil. Aliás,
    existiu essa discussão da controladoria do banco com agentes do Banco Central, e a
    explicação é justamente porque a transação não tinha acontecido. Ela ficou numa conta
    transitória.
    DELEGADA: Com quais agentes o senhor discutiu esse registro contábil no Banco
    Central?
    DANIEL V.: Eu, pessoalmente, não discuti. Mas eu sei que houve essa discussão da
    controladoria, do Ângelo Silva, com pessoas da supervisão, que eu não me lembro quem
    da supervisão supervisionou o banco.
    DELEGADA: Se o senhor fosse presidente do BRB, tentaria comprar um banco que já lhe
    havia vendido, mais de uma vez, carteiras de crédito falsas?
    61
    DANIEL V.: Primeiro, novamente, o banco não vendeu carteiras de crédito falsas para o
    BRB. E sim, se eu fosse o BRB, compraria. E foi uma pena o negócio ter sido negado. Uma
    pena para o mercado brasileiro, não só para o BRB. O BRB é um banco regional como
    poucos hoje, porque todos acabaram, um banco que teria toda a possibilidade de
    crescer, ter uma abrangência nacional e competir com grandes bancos brasileiros. Pela
    transação que seria feita, seria possível ter mais lucro, mais resultado, crescer, e acabou
    não acontecendo. Então, eu faria, sim, esse negócio. Aliás, esse negócio foi
    recomendado por diversas auditorias, pela própria fiscalização do Banco Central, que
    naquele momento, até antes da gente dar entrada, indicava como sendo um bom
    negócio para o sistema financeiro.
    DELEGADA: Em 17 de novembro de 2025, entre 13h30 e 14h10, o senhor participou de
    reunião por videoconferência com Ailton de Aquino Santos, diretor de fiscalização do
    Banco Central. Quem solicitou essa reunião, o senhor ou o Banco Central?
    DANIEL V.: Eu.
    DELEGADA: Qual foi o assunto tratado?
    DANIEL V.: Foi a continuidade das reuniões que a gente já vinha fazendo e um desfecho
    de um plano de solução que eu tinha apresentado logo após a negativa da transação
    com o BRB. Um desfecho que, teoricamente, seria feliz, com a venda das três
    instituições, cada uma para um grupo de investidores.
    DELEGADA: O senhor comunicou ao diretor de fiscalização que viajaria ao exterior no
    dia seguinte?
    DANIEL V.: Sim, com certeza. Não, no mesmo dia.
    DELEGADA: O senhor tinha conhecimento de que a liquidação extrajudicial do Banco
    Master seria decretada no dia seguinte?
    DANIEL V.: Com certeza, não.
    Se havia algum dia que eu imaginava que isso não fosse acontecer, seria no dia seguinte,
    porque justamente no momento em que a gente trouxe uma solução para a mesa —
    uma solução extremamente benéfica, como eu disse, para o mercado — e não era para
    qualquer um. Estava trazendo investidores de peso para o negócio.
    62
    DELEGADA: O senhor tinha algum pressentimento de que havia um mandado de prisão
    expedido contra si?
    DANIEL V.: De maneira nenhuma. Nem nos meus piores pesadelos eu achei que poderia.
    DELEGADA: O senhor se preocupou, porque o senhor peticiona nos autos, mesmo com
    essa questão de uma notícia, enfim, e o senhor se preocupou com o que havia ali
    naquele procedimento?
    DANIEL V.: Na verdade, não era o único.
    A gente tinha vários. A gente estava com os advogados mapeando todos e sempre nos
    colocamos à disposição para explicar. Era um momento em que a gente já estava sob a
    luz da mídia e a gente estava, de modo proativo, sempre buscando, quando tinha alguma
    informação de mídia, ir lá explicar e prestar esclarecimentos.
    Mas, de maneira nenhuma, eu achei que enfrentaria esse tipo de situação,
    principalmente naquele momento, logo quando a gente tinha trazido a solução para a
    mesa.
    DELEGADA: A viagem ao exterior, com escala em Dubai, era para tratar de negócios
    legítimos ou para deixar o país antes da prisão?
    DANIEL V.: Com certeza para negócios. A gente já tinha ido há duas semanas antes e
    estava voltando para a conclusão dos negócios. Já foi, inclusive, documentalmente
    provado.
    DELEGADA: O documento do Banco Central sobre essa reunião foi utilizado por sua
    defesa no habeas corpus que resultou em sua soltura. O senhor tinha conhecimento de
    que esse documento seria produzido e utilizado dessa forma?
    DANIEL V.: Do Banco Central? Não. Eu estava preso, não fiquei sabendo de nada.
    DELEGADA: Agora, a questão da dimensão política. O senhor conversou com o
    governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, sobre a proposta de aquisição do Banco
    Master pelo BRB, anunciada em 28 de março de 2025?
    DANIEL V.: Conversei em algumas poucas oportunidades, sim
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    DELEGADA: Em caso afirmativo, quantas vezes o senhor encontrou ou conversou com o
    governador Ibaneis Rocha entre janeiro de 2024 e novembro de 2025? Peço que indique
    datas aproximadas, locais e assuntos tratados. O governador foi até a sua casa aqui em
    Brasília?
    DANIEL V.: Já foi à minha casa, se não me engano, uma vez. Eu já fui à casa dele, e a
    gente se encontrou poucas vezes. Conversas institucionais, todas na presença também.
    DELEGADA: Quais os outros políticos, deputados, senadores, que o senhor costumava
    convidar para ir até a sua casa?
    DANIEL V.: Pergunta se eu tenho alguns amigos de todos os poderes. Não consigo
    nominar aqui individualmente quem frequentava a minha casa. Também não vejo qual
    relação com o caso.
    DELEGADA: A gente está estudando justamente as suas relações políticas, né? Por isso
    eu perguntei.
    DANIEL V.: Sim, estudando as relações políticas, mas não tiveram nada a ver com esse
    caso específico do BRB.
    DELEGADA: O senhor conversou com outras autoridades públicas — ministros,
    parlamentares, secretários de Estado, diretores de órgãos públicos — sobre a aquisição
    do Banco Master pelo BRB? Caso afirmativo, indique quem, quando e qual foi o teor das
    conversas.
    DANIEL V.: Além do governador que eu já mencionei e das autoridades do Banco Central,
    nenhuma.
    DELEGADA: O senhor ou qualquer pessoa a seu mando solicitou a intervenção de
    autoridades políticas junto ao Banco Central do Brasil em favor do Banco Master?
    DANIEL V.: Não.
    DELEGADA: O senhor conversou com o senhor Ailton Aquino Santos nos cinco dias
    anteriores à liquidação do Banco Master?
    DANIEL V.: Sim.
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    DELEGADA: Houve alguma tentativa de interferência política na supervisão do Banco
    Central?
    DANIEL V.: De forma alguma.
    DELEGADA: O senhor ou qualquer pessoa a seu mando solicitou a intervenção de
    autoridades políticas junto ao BRB para que a aquisição do Banco Master fosse aprovada
    ou para que as operações de cessão de carteiras continuassem?
    DANIEL V.: Não.
    DELEGADA: O senhor ou o Banco Master fizeram doações eleitorais, contribuições a
    partidos políticos ou patrocínios a eventos ligados a autoridades do Distrito Federal entre
    2022 e 2025?
    DANIEL V.: Doações eleitorais, nenhuma. A gente patrocinou alguns eventos de
    discussão institucional do Brasil, que eu não me recordo se tinham autoridades do
    Distrito Federal.
    DELEGADA: Destino dos recursos. O BRB transferiu ao Banco Master aproximadamente
    R$ 16,7 bilhões entre julho de 2024 e outubro de 2025. Qual foi o destino desses
    recursos?
    DANIEL V.: Atividades normais do banco, ali de resgate de investidores.
    DELEGADA: Alguma parcela desses recursos foi utilizada para remunerar pessoalmente
    o senhor, seus familiares ou empresas a eles vinculadas?
    DANIEL V.: De forma alguma. Ao contrário. Nos últimos seis meses, comprovadamente
    pelo próprio Banco Central, eu fiz cessão de ativos pessoais, integralizei, aprovado
    também pelo Banco Central esse recurso no banco. Então, eu estava na tentativa forte
    de trazer a solução definitiva para o banco. Eu estava num movimento inverso.
    DELEGADA: Alguma parcela desses recursos foi transferida para o exterior, dos R$ 16,7
    bilhões?
    DANIEL V.: Não, do Banco Master, não.
    DELEGADA: O senhor possui bens, contas ou investimentos no exterior? Em caso
    afirmativo, peço que os discrimine.
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    DANIEL V.: Eu não consigo me recordar de todas as contas que eu possuo. Eu possuo a
    holding do banco, que era proprietária do banco, nas Ilhas Cayman. Tinha sido
    estruturada lá. E algumas contas correntes. Não me recordo de outra coisa.
    DELEGADA: Tem casa em Miami?
    DANIEL V.: Não. Apesar da mídia ter anunciado, não tem. Tenho locação de um imóvel
    lá.
    ENCERRAMENTO
    DELEGADA: Doutor, só uma pergunta. Encerraram as perguntas que o senhor me
    mandou aqui. Tem mais alguma? Ah, tá. O senhor pode me dar? É que eu mexi tanto
    aqui nos papéis que eu já… Deixa eu ver se estão aqui. Eu tinha colocado… Pois é, eu
    acabei misturando tudo aqui.
    Se eu tiver mais fácil… Oitenta e um. Ah, esse aqui já tem. Já foi.
    Gostaria que o senhor elencasse todas as pessoas jurídicas que integram ou integravam
    o Grupo Master e quais delas foram liquidadas.
    DANIEL V.: Eu vou falar as principais, porque era uma ramificação de muitas pessoas
    jurídicas.
    A gente tinha a holding proprietária do banco, como eu disse. Tinha uma holding no
    Brasil. Depois, o Banco Master, o CNPJ do Banco Master S.A. Embaixo desse CNPJ, a gente
    tinha o Banco de Investimento, Banco Master de Investimento, o Eubank.
    De grandes CNPJs era esse e a corretora. Com exceção do Eubank, que entrou em RAET,
    os outros três foram liquidados no dia 18.
    DELEGADA: Alguma dessas foi vendida?
    DANIEL V.: Todas tinham sido vendidas. Tinham sido negociadas uma venda no
    momento do dia 18.
    DELEGADA: Dessas que haviam sido vendidas, houve autorização do Banco Central para
    a venda das liquidadas?
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    DANIEL V.: De todas as que a gente vendeu das liquidadas, não houve autorização. Não
    houve nem apreciação desse último pleito que a gente tinha feito. A única autorização
    recente foi a venda do Banco Voiter, que foi autorizada em julho, se não me engano.
    DELEGADA: Então, dessas todas que o senhor listou, a que continua em operação é o
    Eubank.
    DELEGADA: Quantas vezes o FGC alertou o Banco Central sobre problemas com o Banco
    Master? O senhor tem conhecimento?
    DANIEL V.: Eu não tenho conhecimento disso. O que existia, sim, e que eu sei, é uma
    aversão do FGC pela utilização do FGC. Isso a gente sentia na pele com as mudanças e
    propostas de mudança de regulação.
    DELEGADA: Inicialmente, o senhor foi contra a liquidação do Banco Master? Por que
    mudou o voto no colegiado?
    DANIEL V.: Isso não é pra mim.
    DELEGADA: Por que o Eubank não foi colocado na liquidação do Banco Master?
    DANIEL V.: Aí tem que se perguntar ao Banco Central qual foi o critério.
    DELEGADA:Todas as liquidações anteriores realizadas pelo Banco Central incluíram todo
    e qualquer ativo da instituição financeira liquidada?
    DELEGADA: Se o senhor quiser fazer mais alguma pergunta… Não? Pode finalizar. O
    senhor quer finalizar? Posso passar ao senhor.
    ADVOGADO: Na verdade, isso é muito curtinho depois de tudo isso, mas é só alguns
    pontos. O senhor imaginava que a Tirreno poderia estar negociando títulos sem lastro?
    DANIEL V.: Não.
    ADVOGADO: O senhor tinha ideia de que aqueles títulos poderiam estar em
    duplicidade?
    DANIEL V.: Não.
    67
    ADVOGADO: No caso da Tirreno, daqueles títulos da Tirreno não se demonstrarem
    válidos, o senhor tinha crédito suficiente e estaria disposto a aportar e honrar aqueles
    títulos?
    DANIEL V.: Claro, com toda certeza.
    ADVOGADO: O senhor falou em solução para o banco. O senhor pode dizer qual foi a
    solução para o Banco Master quando foi comunicar ao Banco Central?
    DANIEL V.: Era a venda das três instituições: do Banco Master para um conjunto de
    investidores, que incluía a Fictor e investidores estrangeiros; a venda do Eubank para o
    fundo Mubadala; e a venda do banco de investimentos para uma holding brasileira, que
    tinha um investidor estrangeiro que eu também estava negociando, dos Emirados.
    ADVOGADO: O senhor consegue me dizer por que não permitiram que esse negócio
    chegasse ao fim?
    DANIEL V.: O meu entendimento é que, desde o início do negócio com o BRB, existiam
    forças internas do Banco Central e de mercado que queriam que eu estivesse fora do
    mercado e queriam que acontecesse o que aconteceu.
    Aliás, eu fui alertado lá atrás do que aconteceria, que eu seria retirado do mercado se eu
    não deixasse o banco. Eu me dispus a deixar. Eu me dispus a fazer todo o roteiro de sair,
    só que eu queria sair pela porta da frente, não gerando prejuízo para ninguém. E não foi
    isso que me deixaram fazer.
    ADVOGADO: Sobre a prisão, o senhor tinha interesse em fugir?
    DANIEL V.: De maneira nenhuma. Não é do meu perfil, não seria o momento nem a
    forma. Encaro meus problemas de frente. Aliás, vou encarar esse negócio até o final.
    Eu pedi para falar no final ali. Peço a grandeza dos senhores, com toda a pressão da
    mídia, para olhar e tentar imaginar esse negócio sob outro prisma. Doutora, Ministério
    Público, Wilker, que está desde 2019 tentando me pegar de alguma forma. Eu continuo
    confiando na Justiça, mesmo com a pressão da mídia. Gostaria que existisse o benefício
    da dúvida na cabeça dos senhores. Se existisse, a gente não precisaria estar aqui.
    Realmente não existe ninguém que foi prejudicado. Realmente não existe uma fraude
    de 12 bilhões. Existe interesse por trás que fez com que a gente estivesse aqui.
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    ADVOGADO: O senhor tem família, filhos, mora no Brasil?
    DANIEL V.: Sim. Família, filhos, moro em Belo Horizonte.
    ADVOGADO: O senhor tem pai, avós?
    DANIEL V.: Pai, avós. Uma família unida que estou sendo privado de ver, porque moram
    em Belo Horizonte.
    ADVOGADO: Muito obrigada, era só isso.